O saber se aprende com os mestres. A sabedoria, só com o corriqueiro da vida. "Cora Coralina"
13/10/2015
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25/08/2015
24/08/2015
Boicotes não acabam com trabalho semiescravo
Nos últimos anos a mídia tem denunciado inúmeros casos de empresas multinacionais que violam direitos humanos e trabalhistas fora de seus países de origem, em geral, em suas fábricas, minas ou plantações em países em desenvolvimento. Estas empresas aproveitam-se de leis trabalhistas menos severas, forte corrupção e fiscalização ineficiente para reduzir custos de produção em detrimento, muitas vezes, da segurança, saúde e bem-estar de seus empregados. Das minas africanas às sweatshops asiáticas, o desrespeito aos direitos humanos e trabalhistas destes indivíduos têm gerado intenso debate sobre como melhorar as condições de trabalho à nível internacional.
O mito das sweatshops – nem as marcas de luxo estão livres de trabalho semiescravo
O termo em inglês sweatshop foi criado para se referir a fábricas com condições desumanas de trabalho. Em geral são lugares onde a jornada de trabalho é superior ao permitido pela lei, com salários abaixo do piso, onde não há respeito a normas de segurança, onde pode existir maus tratos por parte dos empregadores e desrespeito a diversas leis internacionais de direitos humanos e trabalhistas. As multinacionais que adotam estas práticas violam leis internas e acordos internacionais de direitos dos trabalhadores com intuito de reduzir custos de produção e, consequentemente, aumentar suas margens de lucro. Dessa forma, um dos maiores mitos sobre as sweatshops é o de que apenas marcas populares e baratas se utilizam deste artifício para que o produto chegue ao consumidor final com um preço baixo.
Apesar de ser correto afirmar que marcas de roupas como a Primark, Zara, H & M e Gap conseguem vender seus produtos a preços baixos por violarem leis trabalhistas no exterior utilizando mão de obra semiescrava na produção, não são apenas marcas “populares” que usam sweatshops. Nos últimos anos, marcas de luxo comoArmani, Gucci, Prada, Dolce and Gabanna, Burberry, também têm sido acusadas de utilizar este tipo de mão de obra na produção de suas peças.
Tais acusações a marcas famosas por artigos de luxo e preços elevados, desmistifica a ideia de que apenas lojas populares fazem uso de mão de obra barata e impõem condições de trabalho insalubres aos seus empregados em países em desenvolvimento.
Os argumentos pró-sweatshops
Existe (ainda que mais enfraquecido atualmente) um movimento favorável àssweatshops. Entre seus argumentos, o mais utilizado é o de que trabalhar nestas fábricas, por piores que sejam as condições, é melhor do que não ter emprego nenhum. Este argumento é corroborado por testemunhos de milhares de trabalhadores ao redor do mundo, que garantem preferir um trabalho (considerado nos moldes atuais) semiescravo ao desemprego.
Parece mentira, mas não é. Deve-se lembrar que baixo custo da mão de obra é um dos motivos pelos quais multinacionais instalam suas fábricas nesses países. Dessa forma, as condições de trabalho para a maioria da população (não somente para quem trabalha em sweatshops) são, em geral, péssimas e os salários baixíssimos. Portanto, as condições vigentes nestas fábricas não são uma exceção, ao contrário, são quase a regra.
Não é surpreendente, assim, que apareçam na mídia relatos de trabalhadores em defesa das multinacionais onde trabalham. Um artigo do jornal The New York Times mostra o ponto de vista dos trabalhadores asiáticos sobre as sweatshops, usando-o para defender a tese de que estas “são um claro sinal da revolução industrial que está começando a remodelar a Ásia”.
O texto parece um trabalho encomendado por alguma multinacional, contudo, traz pontos válidos sobre as condições de trabalho de uma forma geral em países em desenvolvimento. Durante o tempo em que morei na Tanzânia, ouvi muitos testemunhos similares aos do artigo acima. Ouvi de mulheres que trabalhavam em uma mina ganhando o equivalente a R$1 por dia e trabalhando 7 dias por semana ao ar livre (sob sol ou chuva), como aquele emprego era o que garantia que a família não passasse fome.
É difícil ouvir tais relatos e continuar demonizando as sweatshops. Contudo, é preciso ler nas entrelinhas o real significado da frase “é melhor isso do que nada”. Essa opinião dos trabalhadores não é fruto de sua satisfação com as condições de trabalho, mas sim o resultado da ausência de melhores alternativas de emprego. O debate, neste sentido, não deveria estar focado apenas nas sweatshops, mas sim em como melhorar as condições de trabalho como um todo em países em desenvolvimento.
Por que boicotes não são eficazes no longo prazo?
Grandes organizações não governamentais têm buscado promover a ideia deboicote a empresas denunciadas por infringir direitos trabalhistas e violar direitos humanos. Denúncias sobre quais multinacionais reduzem custos de produção devido às condições de trabalho insalubres são importantes para garantir transparência e informar a população sobre a origem dos produtos nas prateleiras do supermercado, das lojas de roupas, calçados e brinquedos, ou até mesmo de serviços prestados.
A ideia de promover boicotes às marcas que usam sweatshops segue a seguinte lógica: as campanhas de boicote têm por objetivo reduzir lucros de uma dada marca como forma de pressão para que esta empresa melhore as condições de trabalho em suas fábricas. A ideia é mostrar para a marca que aumentar sua margem de lucros em detrimento dos direitos dos trabalhadores terá o efeito contrário, pois ela perderá consumidores. Apesar de fazer sentido na teoria, na prática essa lógica não possui resultados positivos a longo prazo.
Para que campanhas de boicotes surtam efeito, ou seja, para que empresas sintam-se de fato pressionadas, é necessário grande publicidade e mobilização e manutencao desse boicote por anos e anos. No curto prazo, portanto, o boicote pode ter um resultado positivo e as marcas podem prometer mudanças em suas fábricas. Contudo, uma vez que haja menos exposição na mídia e menos atenção por parte do grande público, a marca pode voltar a violar os direitos de seus trabalhadores.
Dessa forma, campanhas de boicotes ou mesmo boicotes individuais não mudam o panorama no longo prazo, sendo apenas medidas de caráter imediatista e paliativo. Eles também podem acabar agravando as condições de trabalho nas fábricas, uma vez que as empresas podem optar por reduzir salários ou demitirem trabalhadores como forma de compensar a redução do lucro oriunda dos boicotes. Ainda que funcionem em alguns, como há o exemplo da Nike, os boicotes são direcionados para uma marca em si e não para a situação de um país como um todo.
Existe uma necessidade enorme de pressão da comunidade internacional. Contudo, essa pressão deve ser direcionada aos governos nacionais para que estes aprovem leis rígidas de trabalho e estabeleçam instrumentos de monitoramento do cumprimento destas leis. Boicote a uma ou outra multinacional levará a mudanças pontuais. Leis rígidas que protejam os trabalhadores, por sua vez, respaldam todos os empregados, além de evitar que eles busquem alternativas onde seus direitos não são respeitados.
O próximo texto da série abordará a indústria extrativa e concluirá o argumento a favor da pressão por leis de trabalho rígidas.
Longe de representar o conjunto do operariado, o proletariado dispõe-se a afirmar sua real condição
Não é difícil perceber como precisaremos passar por uma redefinição profunda sobre o que vem a ser uma política transformadora. Muitos acreditam não podermos colocar atualmente tais exigências de transformação por faltar sujeitos políticos constituídos que teriam a força de impulsionar processos. No Brasil e fora dele, vemos o descontentamento evidente com as promessas da vida social no interior do neoliberalismo, vemos o desencanto, mas não se segue daí a constituição de sujeitos capazes de forçar os limites do possível em direção a transformações estruturais. Tal situação talvez nos permita desmontar uma equação que imperou durante muito tempo no pensamento da esquerda brasileira, a saber, a de que o fundamento de uma subjetividade política com forte densidade seria dado pela constituição da consciência de classe do operariado.
Um dos eixos da crença na força política do Partido dos Trabalhadores veio, entre outros, dessa aposta na equação entre consciência operária e transformação social. Pouca coisa abalou a crença em tal equação. Nem a adesão de boa parte do operariado alemão ao nazismo nos anos 1930, assim como a queda paulatina dos bastões europeus de voto operário para as malhas da extrema-direita, nem a constituição do operariado americano em uma “nova classe média”, como dizia Wright-Mills, nem mesmo a adesão de lideranças sindicais ao choque neoliberal, como ocorreu na Polônia de Lech Walesa, serviu de motor para a autocrítica. Quando Francisco de Oliveira alertou para o processo de transformação da classe sindical brasileira em nova elite operadora do capitalismo nacional através, principalmente, da participação em fundos de pensão, não se seguiu daí a pergunta sobre se, afinal, o operariado tinha mesmo tal capacidade política de transformação.
Marx, ao desenvolver uma teoria da formação de sujeitos políticos, recuperou um antigo termo romano: “proletariado”. Conforme definido na Constituição Romana, proletário era a última das seis classes censitárias, classe composta por aqueles caracterizados por não terem propriedade alguma ou por não terem propriedades suficientes para serem contados como cidadãos com direito a voto e obrigações militares. Sua única possessão é a capacidade de procriar e ter filhos. Reduzidos assim à condição biopolítica mais elementar, à condição de reprodutor da população, os proletários representavam o que não se conta na vida social.
É no bojo da Revolução Francesa, e principalmente depois da Revolução de 1830, que o termo será paulatinamente acrescido de conotação política, agora para descrever os que só possuem seu salário diário pago de acordo com a necessidade básica de autoconservação, sejam camponeses, sejam operários, e que devem ser objetos de ações políticas feitas em nome da justiça social. Assim, os proletários não são ainda o nome de um sujeito político emergente, mas o nome de um ponto de sofrimento social. Exemplo claro neste sentido é o uso do termo feito por Saint-Simon.
Dessa forma, mais do que cunhar o uso social do termo, o feito de Marx encontra-se em vincular o conceito de proletariado a uma teoria da revolução ou, antes, a uma teoria das lutas de classe que é a expressão da “história da guerra civil mais ou menos oculta na sociedade existente”. No entanto, para ter tal força política, o termo precisa descrever mais do que uma classe de despossuídos dos bens. Ele precisa descrever uma despossessão completa de si tão bem caracterizada por Marx em uma ideia como: “O proletário é desprovido de propriedade; sua relação com mulher e crianças não tem mais nada a ver com as relações da família burguesa; o trabalho industrial moderno, a moderna subsunção ao capital, tanto na Inglaterra quanto na França, na América quanto na Alemanha, retiraram dele todo caráter nacional. A lei, a moral, a religião são para ele preconceitos burgueses que encobrem vários interesses burgueses”.
Como vemos, o proletariado não é definido apenas a partir da pauperização extrema, mas da anulação completa de vínculos a formas tradicionais de vida. Tais vínculos não são recuperados em um processo político de reafirmação de si, não se trata de permitir que os proletários tenham uma nação, uma família burguesa, uma moral e uma religião. Tais normatividades são negadas em uma negação sem retorno. É só assim que eles se tornam sujeitos políticos. Longe de necessariamente ser o conjunto do operariado, o proletariado pode descrever aqueles dispostos a afirmarem tal experiência de despossessão. Talvez não haja melhor momento para lembrar disto do que agora.
Mais de 70% das pessoas que saíram às ruas de São Paulo são de cor branca, e quase metade tem renda familiar superior a 7 mil reais
Apesar de ter sido o terceiro grande protesto contra o governo petista e pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a manifestação de 16 de agosto mostrou que essa série de movimentos continua sendo constituída majoritariamente por uma única camada da sociedadebrasileira.
É o que revela uma pesquisa com os participantes do ato em São Paulo, estado com o maior número de manifestantes. O perfil de quem tomou as ruas da capital paulista é: homem (57,30%), branco (73,60%), com idade entre 30 e 60 anos (59,2%), renda familiar superior a R$ 3.940 reais (70,9%) e alto nível de escolaridade (65,40%).
“A nossa ideia era um pouco ver se o protesto continuava homogêneo, pessoas com ensino superior completo, brancas. E a primeira conclusão é que o protesto não conseguiu incluir outras classes sociais. É um protesto muito excludente”, afirma Esther Solano, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Ela conduziu o estudo com Pablo Ortellado, filósofo da Universidade de São Paulo (USP), e Lucia Nader, da Fundação Open Society, para o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação, da USP. O levantamento foi realizado junto a 405 pessoas, entre as 12 horas as 17 horas e 30 minutos do domingo 16, em toda a extensão da Avenida Paulista, tem 95% de nível confiança e margem de erro de 4,9%.
Segundo o estudo, os homens representam 57,30% do público, contra 42,70% das mulheres. A maioria das pessoas possui ensino superior completo (65,40%), enquanto que 13,30% estudaram somente até o ensino médio.
A faixa etária mais representativa é de pessoas com idade entre 50 e 60 anos (22,70%), seguida dos manifestantes que têm entre 30 e 40 anos (22,20%) e daqueles que possuem entre 20 e 30 anos (19,30%).
Na questão da classe social, a maioria (28,9%) possui renda familiar entre 7.880 e 15.760 reais. O segundo grupo mais representativo é o dos que possuem renda familiar com valor entre 3.940 e 7.880 reais: eles são 22,5% dos ouvidos na pesquisa. Além disso, 19% das pessoas dizem ter renda de mais de 15 mil reais.
- Quase metade dos manifestantes (48,4%) tem renda superior a 7 .880 reais
A pesquisa também ajuda a desmistificar a tese de que, assim como os grupos Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua, que organizam os protestos, os manifestantes tenham um pensamento liberal sobre questões que envolvam a presença do Estado na vida dos cidadãos.
Os pesquisadores questionaram as pessoas sobre seus direitos e a grande maioria se mostrou a favor de educação (86,9% dos entrevistados) e saúde (74,3%) providas de forma gratuita. Somente a gratuidade dos serviços de transporte foi rejeitada pelos participantes (48,90%) do protesto em São Paulo.
Apesar de defenderam serviços públicos gratuitos, mais de 80% dos manifestantes também se mostram a favor da redução de impostos de uma maneira geral no País. A explicação para essa contradição pode estar em outra pergunta da pesquisa: quase 90% dos entrevistados acredita que o problema da má qualidade nos serviços públicos se deve à corrupção. Outros 93% colocam o problema como resultado de má administração, e 73% discordam de que a razão seja a “falta de recursos” para manter serviços para todos.
Outra questão foi sobre o financiamento empresarial de campanha. Entre as pessoas que estavam presentes na avenida Paulista, 73% não concordam com esse modelo de financiamento eleitoral. Outros 17,8% defendem o formato e 8,6% dizem que não têm uma opinião sobre o assunto.
A pesquisa também se debruçou sobre as opiniões dos manifestantes quanto ao sistema político. Praticamente todas as pessoas que foram protestar na avenida Paulista, aproximadamente 96,80%, estão insatisfeitas com a política no Brasil. Mas a maioria delas, ou 64,20%, pensa que a solução para a crise política é “entregar o poder para um político honesto”.
Outra parcela considerável (43,70%) pensa que os problemas serão resolvidos se o poder ficar a cargo de um juiz honesto, o que remete a figuras como as do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa e o juiz Sérgio Moro, à frente da Operação Lava Jato.
Se, por um lado, os manifestantes parecem acreditar em uma solução personalista, uma esmagadora maioria (71,10%) rejeita entregar o poder para os militares.
A percepção da corrupção no Brasil também parece variar, mais ou menos, de acordo com o escândalo citado. Aproximadamente 99% dos entrevistados consideram graves as descobertas da Operação Lava Jato e do “Mensalão”. Esse percentual diminui um pouco quando o assunto é o “mensalão do PSDB” e esquema de cartel no Metrô de São Paulo. Ainda assim, mais de 80% dos entrevistados os classificam também como graves.
- Parte dos entrevistados nega gravidade de casos como o mensalão do PSDB e mal conhece Operação Zelotes
A diferença é mais significativa, no entanto, quando se trata da Operação Zelotes, que investiga 74 processos de sonegação de impostos por parte de empresas, entre 2005 e 2013, que envolvem um montante de 19 bilhões de reais. Neste caso, 58,80% dos manifestantes admitem que o caso também é grave, enquanto que 38% não sabem classificar a denúncia.
O que explica, então, o fato de os protestos se voltarem somente contra o PT? “A percepção é de que as pessoas acham que o sistema todo é corrupto. Aí o jogo dos organizadores é canalizar esse descontentamento geral com o sistema só no PT. O PMDB está sendo poupado de tudo, não é alvo, mas é considerado altamente corrupto”, afirma Esther.
Esse fenômeno apresenta uma variação maior quando os manifestantes são questionados sobre figuras políticas. Quase 90% responderam que consideram a presidenta Dilma Rousseff (PT) corrupta. O percentual é maior ainda sobre o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), considerado um político envolvido em corrupção para 93,80%.
Apesar de rivalizar com o governo petista, nem o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), passa ileso : mais de 70% dos entrevistados o considera corrupto. O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT-SP), também é colocado no mesmo grupo por 77%.
Já o governador do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB-SP), é classificado como corrupto para apenas 41,70%, contra 36,30% que rejeitam acreditar na participação dele em esquemas. O senador Aécio Neves (PSDB-MG) também é corrupto para 37,80%, enquanto outros 35% negam essa pecha para o tucano.
O príncipe dos sociólogos fala na ilegitimidade de Dilma, cuja legitimidade vem do voto popular e não das pesquisas
A verdadeira razão da voracidade da oposição contra Dilma vem da baixíssima aprovação do governo, como tem sido destacado em diversas pesquisas. Isso virou um ponto importante na lista dos golpistas. A desaprovação das contas do governo no TCU e o processo aberto no TSE são truques políticos da oposição para confundir a sociedade. Nem tudo vem daí.
As decisões dos julgamentos nos tribunais
são incertas e, assim, a conjuntura econômica negativa conjugada pela avaliação positiva do governo, reduzida a 8% da população, tornou-se fator determinante na luta pelo afastamento de Dilma do poder. Os golpistas marcham por essa estrada e ela desemboca, para citar o exemplo mais emblemático, na Avenida Paulista. Atrás disso há variados interesses. Os pessoais, os políticos e, também, os poderosos interesses econômicos daqui e d’além-mar.
Uma crise econômica circunstancial sempre resulta, para os governos, em desaprovação. Mas esse momento não justifica o assalto ao poder. No jogo da democracia, a maioria de hoje pode ser a minoria de amanhã. E vice-versa.
Pesquisas de avaliação do Ibope, considerando o item “ótimo e bom”, indicam que dos seis últimos governos civis apenas Itamar Franco, em dois curtos anos de governo, e Lula, nos dois mandatos, terminaram com aprovação maior do que a avaliação inicial. Sarney, Collor, FHC e Dilma, no primeiro governo, concluíram com aceitação pior do que aquela do começo de mandato.
Lula é um caso à parte. Iniciou o segundo mandato com aprovação de 51% e terminou com 80%. A pior avaliação dele, ocorrida no primeiro mandato, foi de 29%. Sarney fica com a lanterninha, com 7% de aprovação. Um empate técnico com Dilma (tabela).
Não há diferença entre os 7% de Sarney, os 8% de Dilma, os 12% de Itamar e os 17% de FHC. Números negativos. Pesquisa, como se sabe, é o retrato do momento em que é levada a campo. Ouvir a sociedade pode ser bom sinalizador das administrações. Embora a maioria seja referência básica do regime democrático, às vezes é preciso destoar desse princípio. Negá-lo em dadas circunstâncias, em nome de outros valores tão ou mais fundamentais.
A história é recheada desses exemplos.
Uma grande maioria apoiou a ascensão de Hitler, na Alemanha, em meio a uma crise econômica monumental. Thomas Mann preferiu perder a cidadania. Saiu do país. Recusou participar daquela maioria que aderiu ao ódio nazista.
Guardadas as proporções, o Brasil vive paradoxo semelhante.
Há quem o ignore e há quem o abrace. Abraço comprometedor pelo qual se deixou levar o ex-presidente FHC, no oportuníssimo dia seguinte à manifestação. Ele usou o trampolim dos protestantes para defender surpreendente argumento: “O governo, embora legal, é ilegítimo”.
É o ex-presidente ou o ex-sociólogo que avoca o poder de deslegitimar Dilma?
Vêm das urnas a legalidade e a legitimidade. Protestos, embora legítimos, não abonam golpes. Salvo por meio de intervenção militar como em 1964.
Segundo a denúncia, remessas feitas à igreja evangélica eram uma das formas de recebimento de dinheiro
Parte da propina paga ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), no esquema de fraudes da Petrobras teria sido feita por meio da Igreja Evangélica Assembleia de Deus. Segundo consta na denúncia da Procuradoria-Geral da República, o operador do PMDB no esquema de fraudes na estatal, Fernando Soares – vulgo Fernando Baiano – orientou o lobista Júlio Camargo, que prestava serviços para a Toyo Setal, a efetuar dois depósitos no valor de 250 mil reais para a igreja.
Segundo a denúncia, Baiano seria “sócio oculto” de Cunha nas fraudes. Os dois depósitos foram feitos no valor de 125 mil reais em 31 de agosto de 2012 pelas empresas Treviso e Piemonte, pertencentes a Camargo.
O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirma na acusação que Camargo nunca fez qualquer tipo de doação à igreja e os depósitos tiveram a única finalidade de quitar dívidas com o deputado por conta do contrato entre a coreana Samsung e a japonesa Mitsui no aluguel e venda de dois navios sondas da Petrobras. Os contratos somaram 1,2 bilhão de reais e teriam gerado 80 milhões de dólares em propinas aos lobistas e a Cunha.
Ainda de acordo com o procurador-geral, “é notória a vinculação de Eduardo Cunha com a referida igreja. O diretor da referida igreja perante a Receita Federal é Samuel Cássio Ferreira, irmão de Abner Ferreira, pastor da Igreja Assembleia de Deus de Madureira, no Rio de Janeiro, que o denunciado frequenta. Foi nela inclusive que Eduardo Cunha celebrou a eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, conforme amplamente divulgado pela imprensa”.
A acusação ainda cita um encontro que teria havido entre Fernando Baiano, Júlio Camargo e Eduardo Cunha em um prédio no Rio de Janeiro. O encontro teria ocorrido na avenida Afrânio de Melo Franco, no Leblon. Segundo consta da denúncia, Cunha e Baiano teriam chegado em uma Range Rover e estacionado em um prédio vizinho a onde ocorreu a reunião. Foram identificados registros de chamadas de rádio de Baiano nas imediações e o ingresso de seu veículo neste estacionamento. Nesta reunião teria sido exigido por Cunha a Camargo a propina de 5 milhões de dólares.
A procuradoria-geral da República pede que Cunha e a ex-deputada Solange Almeida (PMDB-RJ) sejam condenados por corrupção passiva e lavagem de dinheiro além de devolverem aos cofres públicos 80 milhões de dólares. Segundo a denúncia, Solange teria ajudado Cunha a pressionar Camargo a acelerar o pagamento de propinas após ingressar com um requerimento no TCU pedindo esclarecimentos sobre os contratos da Samsung e Mitsui junto a Petrobras.
Envolvimento na Lava Jato pode levar deputado a radicalizar declarações, mas ações contra o Planalto podem perder força
Por Jean-Philip Struck
O Ministério Público Federal apresentou nesta quinta-feira 20 denúncia contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro. O deputado é acusado de ter recebido 5 milhões de dólares em propina para facilitar um negócio envolvendo a Petrobras.
Mesmo com a denúncia, o deputado vem afirmando que não vai se afastar da presidência da Câmara. “Vou continuar no exercício para o qual fui eleito pela maioria da Casa. Estouabsolutamente tranquilo e sereno em relação a isso”, disse ele na quarta-feira.
Para especialistas ouvidos pela DW, as denúncias devem atingir Cunha em cheio e começar a corroer o poder do deputado, que nos últimos meses se tornou o maior rival político do governo e da presidente Dilma Rousseff.
“Ele vai sair de uma posição de ataque e passar a se defender. Isso vai demandar muita energia. Cunha não vai sair por conta própria, mas pela primeira vez vai começar a sofrer uma pressão real”, afirma o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Em julho, quando ocorreu a divulgação das denúncias contra Cunha, o deputado reagiu de maneira tempestuosa, anunciando o seu rompimento com o governo federal e passando a articular a aprovação de pautas contra os interesses do Planalto. Na avaliação do deputado, o governo está articulando as acusações com a Procuradoria-Geral com o objetivo de derrubá-lo.
Para Prando, a tendência é que Cunha perca sua capacidade de atacar o Planalto. “Ele pode até se radicalizar verbalmente, mas vamos passar a ver uma diferença entre o discurso e a prática. Ele deve ficar mais quieto”, afirma o especialista.
Já para o cientista político Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a denúncia pode fazer com que Cunha empurre mais “pautas-bomba” – que vão contra os interesses do governo – para votação na Câmara. Mas, no fim, o saldo vai ser positivo para o Planalto.
“Ele tende a ficar isolado e não vai ter condições práticas e morais para liderar um processo de impeachment contra Dilma”, avalia.
Desde a semana passada, as opções de Cunha para atacar o governo diminuíram. Seu poder de articulação para dar prosseguimento a um processo de impeachment contra Dilma sofreu um duro golpe quando o STF decidiu que a análise das “pedaladas fiscais” será comandado pelo Senado, onde Dilma conta com mais apoio.
Na quarta-feira 19, após a divulgação de que a denúncia seria entregue, um grupo de 12 parlamentares do PT, PSB, PSC e PSol anunciou que vai apresentar um pedido de afastamento de Cunha da presidência da Câmara. O pedido tem mais caráter simbólico, já que os parlamentares não têm força para exigir a saída de Cunha.
A decisão depende mais do apoio dos líderes das principais bancadas da Câmara. São eles que podem efetivamente fazer pressão para que Cunha deixe o cargo. Em último caso, deputados podem tentar ingressar com um pedido no Conselho de Ética da Câmara para a abertura de um processo por quebra de decoro parlamentar. Caso o conselho aceite o pedido, os deputados podem começar a articular a cassação do mandato. Tal perspectiva, no entanto, ainda parece nebulosa.
Diferentes levantamentos realizados pela imprensa brasileira mostraram que pelo menos dez líderes de bancadas, que representam mais da metade dos deputados, ainda são contra o afastamento de Cunha.
Alguns deles afirmaram que preferem esperar que o STF aceite a denúncia para dar início a qualquer discussão para a saída de Cunha. Esse é um cenário que promete se arrastar. No caso da denúncia do escândalo do Mensalão, por exemplo, a denúncia demorou quase um ano e meio para ser analisada pelos ministros do STF até ser aceita – e o julgamento só foi iniciado cinco anos depois.
Para o professor Oliveira, no entanto, o tempo está correndo contra Cunha, e o deputado eventualmente vai ser forçado a deixar o cargo.
“Os líderes vão perceber que Cunha é uma canoa furada e vão abandoná-lo. O PSDB e o DEM, por exemplo, vão calcular que não vale a pena ser cúmplice do deputado, que está sendo também acusado de usar a estrutura da Câmara para se defender das acusações. Nenhum político gosta de comparecer ao velório de outro político. Estamos vendo a repetição do que aconteceu com o deputado Severino”, afirma o cientista político, se referindo ao ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti, que em 2005 renunciou ao cargo sete meses após ser eleito.
Já o cientista político Prando afirma que, embora o crescente isolamento de Cunha seja positivo, ele também evidencia mais uma vez os problemas do sistema político nacional. “Os presidentes da Câmara e do Senado e a presidente da República estão envolvidos em denúncias de corrupção. Os dois primeiros pela Lava Jato, a última, pelo financiamento da campanha. Isso mostra o nível de degradação em que a política do país chegou.”
Não querer discutir temas tão importantes é sintomático de uma sociedade imatura para o debate sério
Quem é feminista ou milita na luta antirracista ou no movimento LGBT, com certeza já ouviu de alguém a frase: “Ah, mas vocês só falam disso” ̵ seja para expressar cansaço ou destilar ódio.
Essas pessoas, obviamente, ignoram que machismo e racismo são elementos estruturantes dessa sociedade, logo nenhum espaço estará isento dessas opressões. Basta vermos as desigualdades salariais entre homens e mulheres ̵ se falarmos de mulheres negras, a distância é maior ainda ̵ ou o número de jovens negros assassinados pelo Estado.
Para nós, falar desses temas é questão de sobrevivência, é denunciar a dura e desigual realidade. Pedir para pararmos de falar disso, seguindo a síndrome Morgan Freeman de ser, é querer manter as coisas como estão. Freeman, em uma entrevista, disse que o dia em que pararmos de falar de racismo, ele deixará de existir, como se racismo fosse uma entidade.
Fazendo uma analogia simplista, e um “argumento” simplista como esse requer uma analogia assim, se uma pessoa está com câncer e deixa de falar nisso e procurar tratamento, a doença simplesmente vai desaparecer? Não querer discutir temas tão importantes é sintomático de uma sociedade imatura para o debate sério. Há uma frase que circula nas redes sociais que explica bem: “Se você está cansado de ouvir falar sobre racismo, imagine quem vive isso todos os dias”.
Fora isso, há os intelectuais e especialistas que adoram dizer serem pessoas que falam de tudo, arvoram-se por falar de tudo. Esses também se referem a nós como pessoas que “só sabem falar disso”. Nesses casos, eu julgo ser pior, porque essas pessoas têm acesso a um debate mais crítico, mas preferem se esconder por de trás de seus privilégios.
Criam categorias como literatura feminina, assuntos para mulheres. A literatura produzida por eles é tida como universal e a feita por mulheres, “literatura feminina”. Alguém já ouviu alguém falar em literatura masculina? Criam sub categorias para hierarquizar arte e conhecimento. Julgam que falam do universal enquanto nós só falamos do específico, do “nosso mundo”, quando é justamente o contrário.
Ao falarmos de nós, estamos denunciando o quanto essa categoria universal é falsa, pois tem como base o homem, o branco. Apontar isso, é justamente ampliar essa categoria de universalidade, fazê-la abranger um número maior de possibilidades de existência.
Se racismo e machismo são elementos fundantes dessa sociedade, as hierarquizações de humanidade serão reproduzidas em todos os espaços. Deste modo, a ciência já foi utilizada para legitimar racismo através dos estudos de evolução biológica do século 19 que introduziu o conceito de "racismo biológico", assim como também para querer provar uma “inferioridade natural” da mulher.
Como disse Bourdieu: “A ciência neutra é uma ficção. Uma ficção interessada”. Há o interesse de quem possui os privilégios sociais de criar mecanismos de manutenção desses privilégios, seja pela ciência, pela arte ou pela educação. Lélia Gonzalez, intelectual e feminista negra aborda essa questão em suas obras.
Criticando a ciência moderna como padrão exclusivo para a produção do conhecimento, vê a hierarquização de saberes como produto da classificação racial da população, uma vez que o modelo valorizado e universal é branco.
Nada é isento de ideologia. Como acadêmica e militante, ouço por parte de alguns acadêmicos que sou ideológica por estudar feminismo, como se eles também não tivessem seguindo uma ideologia, inclusive a de decidir quais temas são legítimos ou não e a de nos manter fora desses espaços. Nosso “stand point”, ponto de partida, como define Patricia Hill Collins, ou o nosso “só falar disso” nos permite refutar esse modelo e pensar outros mais plurais e democráticos. Não é possível falar de política, sociedade, arte, sem falar de racismo e sexismo.
Falar de questões que foram historicamente tidas como inferiores, falar de mulher, população negra, LGBT é romper com a ilusão de universalidade que exclui. A concepção de universal de quem está no poder é um dado ilusório. Não nos enganemos quando eles dizem que falam de temas universais e nós não. Eles estão tão somente falando de si próprios.
Tocar, reunir e avançar
Como diria Marx (o Groucho): todos nascemos iguais, exceto alguns economistas petistas e alguns políticos tucanos. Nas últimas semanas, têm feito enorme esforço de qualificação para o prêmio Ignobel de Economia e de Política de 2015. Igualam-se em potência intelectual quando propõem, respectivamente, para a saída da crise econômica, mais política anticíclica (para corrigir um desequilíbrio fiscal estrutural cuidadosamente construído) e para a saída da crise política, nada menos do que a ideia genial de uma nova eleição. Isso, apenas, se não conseguirem um “jeitinho” de substituir, no tapetão, quem ganhou a eleição por quem a perdeu. Tinha razão meu velho professor Montoro: a de que escuridão pode nos levar à ambição desmedida!
É tempo de todos colocarmos de lado o pensamento mágico e colaborarmos para o bom funcionamento das sólidas instituições que construímos. É preciso respeitar um mínimo da lógica econômica que tem sido usada, nos últimos cem anos, em todas as sociedades relativamente civilizadas: produz uma módica liberdade de iniciativa individual, uma progressiva igualdade de oportunidades e alguma eficiência produtiva, que é a possibilidade de fruição das outras duas. É preciso incorporar o fato de que quem foi eleito legitimamente (eDilma o foi!) só pode ser privado da missão que recebeu da maioria nas urnas, com a mais rigorosa observância do rito constitucional e uma vez provado, materialmente, que cometeu ou se beneficiou de eventual desvio de função. A “vontade” expressa nas amostragens da opinião pública, por mais exatas e fiéis que sejam; a “gritaria raivosa” no hospício a céu aberto daCâmara dos Deputados; as “passeatas cívicas” dominicais, e os “panelaços mal educados” das zonas abastadas, podem pretender revelar o “espírito da sociedade” em relação ao governo. São, entretanto, absolutamente inservíveis como prova para aquela finalidade.
O brasileiro não tem mais tempo para continuar paralisado ou meter-se em novas experiências políticas e econômicas. Ele sabe que está ameaçado de perder o seu emprego, e, assim, de destruir sua família. Sente o risco de ser empurrado para uma correção de rumo fora do controle do governo com a perda do grau de investimento pelo País. É tempo, pois, de a presidenta Dilma reafirmar o seu caráter e recuperar o seu protagonismo. De apresentar à sua “base” um conjunto de projetos fundamentais nos campos orçamentário, tributário, trabalhista, previdenciário e de cooptar o Congresso para enfrentar os graves obstáculos que consomem a energia do nosso crescimento inclusivo e sustentável. Em benefício do próprio Legislativo, aliás, que terá a oportunidade de recuperar, também, algum respeito da sociedade.
É tempo de reconhecer que sem abandonar o diálogo com os “convertidos”, é preciso enfrentar os “não convencidos”, pedindo-lhes desculpas, colaboração e paciência. De mostrar firmeza e disposição para atacar com rapidez os problemas que dependem apenas do Executivo (melhorar as agências reguladoras, dar liberdade plena à administração da Petrobras etc.). De cortar na própria carne, nem que seja apenas para dar o exemplo.
O ideal para o futuro do Brasil, é que Dilma recupere o prestígio e o respeito que recebeu da maioria absoluta dos votos válidos no processo eleitoral. Qualquer outra solução fora da rigorosa disciplina constitucional será um atraso institucional e será ineficiente. Os mesmos problemas (a exemplo do desequilíbrio fiscal “estrutural” que explodiu no seu colo, mas não foi apenas obra sua) vão continuar. Não serão resolvidos enquanto a sociedade não entender que precisa mobilizar-se para pressionar o Executivo e o Legislativo, independentes, mas cooperativos e harmônicos, para que cada um cumpra o seu papel nas mudanças institucionais que o Brasil precisa.
A experiência mostra que se tentarmos resolver isso com aumento de impostos teremos ainda menos crescimento e o necessário “ajuste fiscal será uma miragem. Vamos ter de enfrentar as despesas e isso só se fará alertando, esclarecendo e cooptando a sociedade, mostrando-lhe que não se trata de cortar os programas bem focados de inclusão social, mas de insistir fortemente na produtividade do setor público, acompanhada pelo controle dos benefícios excessivos até aqui apropriados pelas minorias organizadas.
Política monetária em tempos de crise
ises financeiras, como a ocorrida em 2008, são acompanhadas por fortes quedas da produtividade total dos fatores (PTF) nos países emergentes. Tal efeito é amplamente documentado para todas as economias emergentes por Calvo et alii (2006) e Cerra (2008), para as crises nas décadas de 80 e 90, e por Queralto (2012) para a crise de 2008. Neste artigo, mostramos evidências de que a crise de 2008 levou a uma queda da PTF no Brasil e apresentamos um modelo onde os efeitos reais da crise resultam de choques externos que implicam em mudanças nos preços relativos dos fatores de produção, e assim na PTF. Tal modelo é estimado para a economia brasileira, e as implicações para a condução de política monetária são discutidas.
Nós analisamos dois tipos de choques externos sob os quais a economia brasileira se deparou recentemente, e suas conseqüências sobre a economia: choques de sudden-stops e choques nos termos de troca. Dessa forma, o foco do artigo será avaliar a condução de políticas monetárias em períodos de crises provocadas por estes dois tipos de choques.
Em uma economia com fricções no sistema financeiro é de se esperar certo grau de ineficiência alocativa. Uma queda de produtividade acentuada durante uma crise financeira revela que a crise pode causar um aumento desta ineficiência. Assim exploramos como um sudden-stop implica em um aumento da ineficiência alocativa causada por fricções financeiras. Ao mesmo tempo, quando uma economia precisa importar insumos, um choque nos termos de troca resulta em uma mudança dos preços relativos da economia, implicando em outra fonte de ineficiência alocativa.
O modelo é desenvolvido a partir de uma mescla de insights fornecidos por modelos de working capital com cash-in-advance (e.g. Carlstrom e Fuerst, 1995), de fricções financeiras em economias abertas e pequenas (e.g. Neumeyer e Perri, 2005, Pratap e Urrutia, 2012), e modelos com importação de insumos, de forma que os termos de troca são relevantes na alocação de recursos produtivos (e.g. Mendoza, 1995, Acemoglu e Ventura, 2002).
Dessa forma, o modelo consiste em uma economia em que o lado real segue um modelo padrão de Real Business Cycles (RBC). A moeda é inserida no modelo a partir de uma restrição cash-in-advance na decisão de consumo das famílias, e em uma restrição de working capital na decisão de contratação de trabalhadores pelas firmas. Tais restrições implicam em duas ineficiências sobre a economia:
1) a restrição de moeda pelas firmas faz com que os juros cobrados pelo intermediário financeiro afete o custo do trabalho, e, assim, a sua demanda (Fuerst, 1994);
2) a restrição de moeda das famílias implica em uma distorção na decisão de consumo (Cooley e Hansen, 1989).
Nós adicionamos ao modelo o setor externo de duas formas. Primeiramente, como um agente que empresta recursos para o intermediário financeiro, sendo uma fonte de liquidez, o que reduz a primeira fonte de distorção listada no parágrafo anterior; e em segundo lugar, como produzindo bens intermediários que são importados pelas firmas para serem utilizados na produção. Como resultado, os termos de troca afetam os preços relativos dos fatores, e assim, a eficiência alocativa da economia, de forma que choques nos termos de troca terão um efeito similar a um choque de produtividade.
O modelo é estimado para a economia brasileira para o período 2000-2012. A partir dos parâmetros estimados e calibrados, o modelo foi capaz de construir uma série de hiato da PTF que segue as mesmas direções da série observada nos dados, explicando boa parte do seu comportamento no período. Além disso, os resultados indicam que a regra de política monetária que maximiza o bem estar depende da fonte dos choques, uma vez que cada choque implica em distorções diferentes sobre o modelo.
2. CRISE DE 2008 NO BRASIL: FATOS ESTILIZADOS
A economia brasileira apresentou mudança na sua trajetória após a crise financeira de 2008. Nesta seção, a mudança na trajetória é documentada. A Figura 1 apresenta a série de PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil trimestralmente entre 2006 e 2012. O produto brasileiro apresentava uma trajetória de crescimento até o final de 2008, quando a crise financeira levou à diminuição do PIB. Depois o PIB retoma a trajetória de crescimento mas, a partir da segunda metade de 2010 assume uma trajetória de estagnação. Tal comportamento é bem evidente ao observarmos as séries da indústria na Figura 2.
O ponto que chama mais a atenção nestas figuras é que fica bem visível que a produção sofreu uma queda repentina com a crise de 2008, e, longe de retornar à mesma trajetória de crescimento, começou a divergir da trajetória anterior, mesmo após quatro anos pós-crise. Tal comportamento fornece evidências de que a crise foi capaz de alterar a trajetória de crescimento do país.1
Como verificamos a crise teve como resultado uma mudança significativa e persistente na produção industrial brasileira. Na literatura de crescimento há explicações que tentam vincular a mudança de trajetórias de longo prazo em face à crises por fricções financeiras em países em desenvolvimento, como em Queralto (2012), onde se incorpora o ambiente de fricções financeiras à la Bernanke-Gertler em um modelo de crescimento endógeno. No presente artigo iremos nos focar às consequências de curto prazo de crises como choques de liquidez.
Porém, outro aspecto da crise chama a atenção. O comportamento de queda do PIB em 2008 está atrelado a uma queda persistente da Produtividade Total dos Fatores (PTF) da economia. Vale à pena destacar que as taxas de desemprego, após 4 anos da crise, são hoje menores que antes da crise e que a utilização da capacidade instalada também é maior hoje. Isso fornece pistas de que ocorreu uma queda da produtividade que se manteve no período. A Figura 3 apresenta a trajetória da PTF no Brasil de 2004 a 2011. Há uma tendência de crescimento da PTF, interrompida com a crise financeira de 2008 e que não chega a retomar o crescimento prévio.
Diante disso, apresentaremos na próxima seção um modelo teórico que fornece as explicações para a relação entre choques externos (como sudden-stops e deterioração nos termos de troca) e as variações na PTF e no produto. Tal modelo será estimado para a economia brasileira para verificar possíveis prescrições de política econômica.
3. MODELO
Nesta seção apresentamos o modelo padrão que utilizaremos para avaliar a política monetária em períodos de crise.2 O modelo é uma economia pequena, que importa insumos para a produção e que toma emprestado recursos externos (i.e., recebe um fluxo de capital, que aumenta a liquidez do sistema financeiro). Os termos de troca que as firmas se deparam para importar os insumos e o montante de recursos recebidos seguem um comportamento estocástico. Assim choques nestas variáveis serão as fontes de crises de nossa economia.
O intermediário financeiro recebe recursos do exterior e depósitos das famílias, que repassa às firmas. Ao mesmo tempo a autoridade monetária pode fazer uma injeção de moeda no sistema financeiro por meio de compras ou vendas de títulos públicos em operações de mercado aberto. Como consequência, a taxa de juros cobrada às firmas será diferente da taxa paga às famílias, uma vez que as famílias não podem rever seu portfólio após a intervenção do Banco Central. Assim, o intermediário financeiro tem duas funções:
1) ser o canal de recursos financeiros do exterior e das famílias para as firmas;
2) ser o canal de transmissão da política monetária.
A economia é formada por três tipos de agentes: famílias, firmas e intermediários financeiros. Todos são numerosos de forma a agirem em competição perfeita. Logo, restringimos ao comportamento do agente representativo de cada um deles, e após isso considerar as implicações para equilíbrio geral.
3.1. Famílias
As famílias possuem capital e recebem renda do capital, do trabalho e de juros sobre depósitos no sistema financeiro do período anterior. Assim, no início do período as famílias decidem se usarão seus recursos em consumo, investimento em capital, ou em depósitos no sistema financeiro para receber juros no período seguinte.
As famílias vivem infinitamente, e cada família i busca maximizar a função utilidade esperada dada por
no qual ct é o consumo da família em t, h o trabalho ofertado e D e (0,1) a taxa de desconto temporal. Na equação (2), utiliza-se a utilidade logarítmica com trabalho indivisível, no qual
As famílias estão sujeitas a uma restrição cash-in-advance
e à restrição orçamentária
no qual Pt é o índice de preços em t e mt a moeda que as famílias podem utilizar para consumo ou para depósitos (Nt) no intermediário financeiro, no qual receberão juros rn.
Assim, as famílias iniciam o período com o salário recebido (w), o retorno do capital (r), o estoque de capital que não depreciou, e o saldo resultante dos depósitos bancários, e deve decidir entre investir e manter moeda, que será utilizada para novos depósitos ou para consumir durante o período.
3.2. Firmas
A firma representativa contrata trabalhadores (H), importa bens intermediários (Xf) e aluga capital (K) sob competição perfeita, maximizando o lucro, e depara-se com uma função de produção dada por
e maximiza lucros sujeito à restrição orçamentária
Assim, a firma tem de pagar salários, mas também tem de pagar os juros rf pelo capital de giro que tiveram de tomar emprestado para pagarem os salários. Esta mudança significa que choques na taxa de juros alteram as decisões de produção e têm um efeito direto no produto. Além disso, ao importarem bens, as firmas pagam um preço pf, que é o inverso dos termos de troca.
A condição de maximização do lucro faz com que as firmas tenham uma demanda por bens intermediários importados
. Desse modo, podemos reescrever a função de produção como (6)
no qual
. Dessa forma, um aumento nos termos de troca (queda em pf) implica em um aumento da produtividade total dos fatores da economia, A.
3.3. Intermediário financeiro
O intermediário financeiro opera em um mercado competitivo, recebendo os depósitos das famílias, Nt, os empréstimos do exterior, Bt, e as injeções de moeda da autoridade monetária,
, e emprestando esses recursos às firmas.
Na literatura, a restrição de tomada de crédito externo pode ocorrer por causa de restrições de colateral, o que implicaria que a restrição seria endógena de acordo com as condições macroeconômicas internas, como em Arellano e Mendoza (2003), ou por causa de parâmetros externos (como variações nas preferências, tecnologia, produto ou fricções financeiras dos países desenvolvidos), como no modelo de equilíbrio global de Caballero e Panageas (2007), sendo determinado exogenamente. Nós assumimos que o fluxo de capitais é limitado por condições externas uma vez que desejamos interpretar a crise de 2008, por exemplo, que claramente foi causada por um choque externo de liquidez. Como consequência, há uma fricção no sistema financeiro que permite que os bancos tomem emprestado do setor externo e das famílias pagando taxas de juros diferentes, pois a restrição sobre o crédito externo limita tal fonte, fazendo com que os bancos tenham de buscar o crédito das famílias a partir de certo ponto apesar de terem de pagar um juro maior.
Assim, assumindo que os bancos agem sob competição perfeita, eles se deparam com a seguinte restrição orçamentária (condição de lucro zero)
ou seja, um aumento da oferta de moeda implica em um efeito de liquidez, diminuindo os juros pagos pelo capital de giro para as firmas.
Assim o valor recebido dos empréstimos das famílias, do setor externo e da autoridade monetária se traduz em pagamento de salários para as firmas de modo que
tal equação é uma condição de equilíbrio para o mercado financeiro.
Dessa forma uma queda em Bt (um sudden-stop) teria um impacto no lado real da economia por reduzir os recursos disponíveis para a contratação de trabalhadores. No modelo, assumiremos que a taxa de juros paga pelos empréstimos externos é uma constante r*, enquanto que o fluxo de capitais é uma variável sujeita a choques estocásticos.
3.4. Política monetária
O Banco Central (BC) escolhe a taxa de expansão monetária com a finalidade de ajustar o valor da taxa de juros de empréstimos às firmas. A partir das condições (7) e (8), o BC pode escolher a taxa de juros r{ e determinar a taxa bruta de expansão monetária gt pela expressão
O crescimento do estoque de moeda é dado por Mt = gtMt-i.
Por sua vez, o BC determina a taxa de juros desejada dos empréstimos às firmas r{ através de uma regra de Taylor, apresentada pela equação (10), que reage aos desvios da economia ao steady-state.
no qual as variáveis com traço são os valores de steady-state, a e b os parâmetros de reação da regra de Taylor,
é a inflação da economia e tt o choque de política monetária. Diferentemente do usual, a taxa de juros a ser determinada pela regra de Taylor é uma taxa de juros real e não nominal porque os empréstimos são tomados no início do período e pagos no fim do período. Essa diferença faz com que o parâmetro
, no qual b seria o parâmetro caso a regra de Taylor regulasse a taxa de juros nominal.
3.5. Equilíbrio
O modelo consiste na dinâmica das variáveis
Considerando as condições de agregação, as condições de primeira ordem das famílias são:
As restrições agregadas para as famílias são dadas por
Para as firmas, o produto marginal do trabalho iguala-se ao salário real acrescido dos custos de financiamento
e o produto marginal do capital iguala-se à taxa de juros
A função de produção é dada por (6) e as condições de equilíbrio para o intermediário financeiro são (7) e (8).
O modelo é log-linearizado em torno do steady-state, originando as equações de espaço de estado que serão estimadas fornecendo os valores dos parâmetros do modelo. A descrição completa do modelo log-linearizado encontra-se no Apêndice A.
4. ESTIMAÇÃO
Todas as séries utilizadas foram dessazonalizadas e filtradas pela técnica de Hodrick-Prescott (com o parâmetro de suavização para dados trimestrais no valor de 1600). O gap do produto foi obtido a partir da série de PIB (Produto Interno Bruto) oriunda do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A taxa de juros de empréstimo às firmas foi obtida a partir da taxa de juros de capital de giro, fornecido pelo BCB. O indicador de liquidez externa advém do montante líquido da conta financeira ao subtrair o investimento direto estrangeiro líquido, fornecido pelo BCB. A partir de tal montante, um índice de liquidez externa foi construído. A série de termos de troca foi obtida a partir da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (FUNCEX).
4.1. Parâmetros calibrados e distribuição das priors
4.1.1. Parâmetros calibrados
A calibração do modelo estipula que os valores de δ, Ζ e D seguem os trabalhos aplicados ao Brasil de Bonelli e Fonseca (1998), Ferreira e Araújo (1999), Kanczuk (2001, 2002), Ellery et alii (2002), Teles e Andrade (2006) e Souza Sobrinho (2011). O parâmetro de crescimento bruto da moeda transferida para o sistema financeiro nosteady-state
foi estabelecido como a taxa de inflação trimestral 6,5% a.a. trimestralizada entre 2000 e 2012. A taxa de juros internacional r* foi calibrada com base na taxa de juros média dos EUA no período. O fluxo de recursos externos em termos reais
foi estabelecido de modo que se aproximasse de 2,5% do produto desteady-state da economia, uma média observada para o Brasil. Para normalizar,
1. A Tabela 1 apresenta os valores calibrados para os parâmetros.
4.1.2. Priors
Os valores médios das priors seguem cálculos para a economia brasileira e valores padrões sugeridos pela literatura. O parâmetro de participação dos insumos importados α foi utilizado como 0,07 que é a média da razão das importações de bens de capital e de bens intermediários em relação ao PIB para o Brasil entre 2000 e 2012. Tal número não se distancia do valor de 0,10 para α obtido por Mendoza (2010). Os parâmetros ρλ e σλforam obtidos de acordo com os trabalhos citados anteriormente, assim como a participação do capital , o que permitiu obter o parâmetro θ.3 Os parâmetros para a regra de Taylor de reação ao produto (a) e à inflação (b) foram assumidos, respectivamente, como 0,5 e 1,5, uma vez que tem sido um resultado padrão em estimações realizadas que a reação do Banco Central que a reação à inflação é muito maior que a reação ao hiato do produto no Brasil.
Por sua vez, os parâmetros para o processo estocástico de rf , ψ e η são obtidos através de uma regressão de mínimos quadrados ordinários sobre o gap dessas variáveis. Baseado na série do capital de giro, obtivemos pt =0,75 e desvio-padrão do resíduo da regressão forneceu σt= 0,01. A partir da série do inverso dos termos de troca obteve-se o coeficiente do inverso dos termos de troca defasado pp = 0,83 e o resíduo da regressão estabeleceu que σρ= 0,01. Por fim, o índice de liquidez externa levou às estimativas do coeficiente do choque defasado de liquidez externa pe = 0,88 e σβ = 1,50.
As séries utilizadas para a estimação bayesiana são os gaps da liquidez externa
, do produto
, do inverso dos termos de troca
e dos juros de capital de giro
.
4.2. Posteriors estimados
A solução do modelo é representada em espaço de estado, que é utilizado para computar a função verossimilhança. Usamos uma abordagem bayesiana e escolhemos as distribuições das priors para os parâmetros da função de verossimilhança. A estimação das distribuições das posteriors dos parâmetros é realizada utilizando-se o algoritmo de Metropolis-Hastings.
Utilizamos 4 choques e por isso utilizamos 4 variáveis observadas para fazer a estimação. A amostra vai do primeiro trimestre de 2000 ao último trimestre de 2012. Os resultados das posteriors estimados são apresentados na Tabela 2. As distribuições estimadas das posteriors são apresentadas no Apêndice B.
5. PROPRIEDADES DO MODELO
Nesta seção, apresentamos a dinâmica do modelo linearizado usando respostas a impulso, com foco nos choques externos. Na Figura 4, nós observamos as respostas a impulso estimadas para um choque no fluxo de capitais. Neste caso, há uma expansão na entrada de fluxo de capitais no país que causa uma expansão da liquidez da economia que se traduz na redução dos juros para capital de giro
. Tal expansão de liquidez externa implica em um aumento na contratação de trabalhadores (h), uma vez que tal recurso fica barateado, e em um aumento da PTF, uma vez que alivia a fricção financeira, tendo como resultado um aumento do retorno marginal do capital (r). Dessa forma, a economia experimenta um aumento do produto (y) e do consumo (c). Um choque negativo de liquidez externa teria um efeito simétrico, ou seja, uma crise de liquidez externa implicaria em um aumento dos juros de capital de giro, seguido de uma queda da produção e da contratação de trabalhadores. Tais movimentos foram verificados por ocasião da crise de 2008 no país.
Na Figura 5, avaliamos as respostas a um impulso negativo nos termos de troca (i.e. um choque positivo em pf).Tal choque implica em um aumento do custo de produção, uma vez que o bem intermediário importado fica mais caro, e reduz a PTF, ao causar ineficiência alocativa. Como consequência, há uma redução do produto marginal do capital e do trabalho, reduzindo-se r e h,e por consequência, a produção y.
A Figura 6 apresenta as respostas a um impulso monetário expansionista, diminuindo de imediato os juros de capital de giro, seguido de um aumento em face da regra de reação do Banco Central. A expansão monetária não é neutra uma vez que há fricções financeiras que fazem com que o custo do trabalho dependa da política monetária. Assim, a diminuição dos juros tem uma implicação no aumento de contratação de trabalhadores o que implica em um aumento do produto e do retorno marginal do capital.
6. APLICAÇÕES
Uma forma de avaliar a importância dos choques externos sobre as flutuações do produto na economia é verificar a decomposição dos choques no produto, disposta na Figura 7.
Nós observamos na decomposição dos choques, que as variações de fluxo de capitais não representam um componente relevante para explicar as flutuações do produto na maior parte do período analisado, mas que a crise de 2008 pode ser explicada de forma preponderante pela queda de liquidez externa, deixando claro que choques abruptos nessa variável têm um impacto relevante na economia.
Por outro lado, as variações nos termos de troca representam uma parcela significativa da explicação das variações do produto, sobretudo no período pós-crise, de forma que nossos resultados corroboram com outros apresentados na literatura, como em Cardoso e Teles (2010). Nesse sentido, fica claro aqui que a correlação entre termos de troca e flutuações do produto podem ser explicadas por um canal de variações na produtividade da economia.
Já os choques inesperados de política monetária se destacam no período entre 2005 e 2007 quando houve uma política monetária mais conservadora, refletindo-se de forma significativa em uma redução do produto. Ao mesmo tempo, os resultados para o período pós-crise refletem a falta de capacidade da política monetária expansionista adotada nesse período de ter um impacto positivo no produto de forma relevante.
Uma forma de avaliarmos a capacidade do modelo de explicar os movimentos da economia brasileira, e especialmente as variações de curto prazo da PTF, é compararmos os valores previstos para a série da PTF pelo modelo com os valores calculados a partir do resíduo de Solow sem tendência. Tal comparação é realizada a partir na Figura 8. A figura mostra que a série prevista segue a mesma direção da observada, embora com menos flutuações. A correlação das duas séries é de 0,79. Assim, podemos dizer que o modelo é capaz de produzir um ajuste bastante próximo do observado.
7. IMPLICAÇÕES PARA POLÍTICA MONETÁRIA
Para analisar as implicações de política monetária, realizamos um exercício de verificar como diferentes regras de política monetária impactam o bem estar com base nos parâmetros estruturais estimados. Os resultados deste exercício encontram-se na Tabela 3. A coluna da regra 1 apresenta os resultados obtidos ao se utilizar à regra de reação estimada para o período, onde a reação a inflação mostrou-se bem maior que a de variações no hiato do produto. As linhas mostram como a economia reagiria sob circunstâncias diferentes, a saber, diante de todos os choques incluídos no modelo, ou diante de cada choque específico.

As colunas das regras de 2 a 5 mostram qual seria o resultado de alterar os parâmetros da regra de Taylor, aumentando ou diminuindo o rigor com relação à inflação e/ou ao hiato do produto. Tais resultados ajudam a interpretar o modelo, pois fornecem como as distorções incorporadas são magnificadas por diferentes choques e como as reações do Banco Central podem ser úteis para controlá-las.
Nesse respeito, as regras de Taylor são preferíveis para aumentar o bem-estar em relação a regras de crescimento constante do agregado monetário, pois estabilizam o juro nominal, que é a fonte de distorção do bem estar em última instância (ver Carlstrom e Fuerst, 1995). No nosso caso, os choques de liquidez externa têm um impacto distorcivo no montante de liquidez do sistema financeiro, e assim sendo uma espécie de choque nominal com efeitos reais. Diante disso, as regras de reação com maior peso à inflação são as que têm melhor desempenho para aumentar o bem estar. Por outro lado, quando a origem do choque é nos termos de troca, a regra que implica em um valor mais alto do bem estar é a que reage mais fortemente a variações no hiato do produto.
8. CONCLUSÕES
Neste trabalho, verificamos como crises causadas por choques externos, como sudden-stops e depreciação dos termos de trocas, afetariam a economia brasileira no período 2000-2012. Para tanto o presente artigo propõe um modelo simples, de cash-in-advance e working capital, no qual choques externos são capazes de afetar a decisão de alocação de fatores de produção, e assim a produtividade total dos fatores da economia.
O modelo é estimado, de forma que a importância dos choques externos pode ser avaliada para o período. O ajuste do modelo é ilustrado por produzir uma série de variações na PTF similar à observada, apesar de não incluir na estimação como variável observada a variável de produtividade, horas trabalhadas, ou de estoque de capital.
Ao avaliar as implicações do modelo, foi possível notar que embora variações na liquidez externa não tenham um impacto relevante no produto na maior parte do período analisado, foi o choque mais relevante para explicar a crise de 2008. Ao mesmo tempo, os choques nos termos de troca têm uma importância na recuperação do produto, principalmente no período pós-2008.
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1 Para confirmar se esta mudança foi significativa basta fazer um VAR com uma dummy de pulso para o terceiro trimestre de 2008 e as taxas de crescimento. Os resultados estão apresentados em uma versão anterior publicada como working paper. 2 Na versão publicada como working paper está incluído um outro modelo mais simples, como forma de deixar clara a intuição da relação entre choques financeiros e a PTF. 3 Consequentemente, a participação do trabalho
de modo a obter o parâmetro β.
A partir das equações do modelo, obtemos o estado estacionário, e em seguida as variáveis log-linearizadas em torno do estado estacionário. As equações para se obter as variáveis no estado estacionário
são
O próximo passo para permitir computar a dinâmica é a obtenção das equações log-linearizadas. A partir das equações de equilíbrio do modelo, obtemos as formas log-linearizadas a seguir.
no qual as variáveis com representam o desvio da variável em relação ao steady-state. 

Além disso, as equações dos processos estocásticos de
são:
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