24/08/2015

Entre renovadores e reacionários: a recepção estética e política da obra de Nietzsche na imprensa brasileira no período de 1893 a 1945

Abstract:

This paper aims to present eighteen texts on Nietzsche published in the Brazilian press in the period from 1893 to 1945. These studies show that two factors of Brazilian culture that period guide the philosopher's reading: the aesthetic and cultural renewal and the political reaction religious. All texts transcribed sequence following the chronological order of their publications.
Key words: Nietzsche; reception; Brazil; press; Jornal do Commercio; Gazeta de Notícias; Fon-fon; O Commercio; Almanaque do Garnier; América Brasileira; Jornal do Recife; A Noite; Diário de Notícias; A Manhã
Como Nietzsche, todos exigimos que nos cantem um canto novo. Paulo Prado. Poesia Pau Brasil.1924.
O super-homem de Nietzsche, alma da filosofia heroica do nazismo e, até certo ponto, do fascismo, escapa aos quadros cristãos-democráticos do espírito ocidental. Diário Carioca, Camillo Avelino, RJ, 1939.
I
Desde o final do século XIX Friedrich Nietzsche "tem presença marcante na cultura brasileira. Nas artes plásticas, no teatro, na literatura, nas ciências humanas em geral, na política, para dizer o mínimo, seu pensamento faz-se sentir" 2 . Sua obra, desde então, tem sido às vezes tomada como algo incondicionado, que existe em si e por si, agindo sobre seus leitores por uma força própria que dispensaria explicações. Esse pressuposto tem repousado na convicção de que há certa virtude criadora no seu autor, muito misteriosa e pessoal; e mesmo quando desfeita pela análise, ainda assim permanece um pouco nos seus leitores, na medida em que se opõe às tentativas de definir os fatores que orientam as leituras de sua obra 3 . É, portanto, justamente para desfazer equívocos como este que o trabalho de recepção se impõe. Para tanto, a pesquisa de recepção procura investigar a filosofia de Nietzsche em diferentes contextos, a fim de revelar os fatores que orientam as leituras de sua obra no Brasil 4 .
Nessa direção, transcrevemos aqui alguns textos sobre Nietzsche publicados na imprensa brasileira no período de 1893 a 1945 que expressam, ora de forma visível, ora de maneira mais implícita, a predominância de dois fatores da cultura brasileira norteando as leituras de sua obra. Os fatores são, de um lado, a renovação estético-cultural em curso desde o final do século XIX, primeiro entre os autores germanistas, passando depois pelos pré-modernistas até, por fim, pelos autores do movimento modernista e, de outro lado, a reação político-religiosa mobilizada contra essa mesma renovação. Os textos transcritos foram publicados na forma de poema, artigos, ensaios, resenhas e conferências. Pertencem a autores conhecidos e atuantes na cultura brasileira da época, como Araripe Júnior, Augusto dos Anjos, Fábio Luz, Elysio de Carvalho, João Ribeiro, Albertina Bertha, Lima Barreto, Renato Almeida, Evaristo de Morais Filho, Julio Erasmo, Padre Leonardo Mascello, Corrêa Velho, Ernani Reis, Padre Carlos Barromeu, Hamilton Barata, João Scapino, Cleto Seabra Veloso.
Quanto ao primeiro fator, a recepção estética, a seleção de textos é composta por trabalhos quase sempre engajados no projeto de renovação estético-cultural predominante a partir do movimento modernista; e, quanto ao segundo fator, a recepção político-religiosa, a seleção contempla textos que defendem o filósofo das apropriações políticas que corroborem governos autoritários, no Brasil e na Europa, e ainda com textos de caráter reacionário, no sentido de se contraporem à renovação em curso e tentarem retomar os valores tradicionais, associando as obras de Nietzsche a Hitler, Mussolini e Getúlio Vargas, às vezes a fim de legitimar suas políticas dominadoras e, ainda outras, a fim recusar e obscurecer o pensamento do filósofo. Noutras palavras, a grande polêmica de então se situa em torno da leitura das obras nietzschianas ora numa chave estético-renovadora, utilizadas como fonte inspiradora para grupos de intelectuais engajados num projeto de renovação das artes, da linguagem e da cultura brasileira em geral; ora numa chave político-reacionária, que se colocava contra as mudanças em curso, sendo então utilizadas como contraponto da reação político-religiosa preocupada em assegurar e conservar os valores da tradição espiritualista, a moral cristã, o nacionalismo ufanista, a honra à pátria e à família, e que sempre teima em relacionar sua obra com as guerras em curso na Europa desde o final do século XIX, a guerra franco-prussiana, a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.
Como veremos, esses fatores comparecem de maneira expressiva na preferência por certos livros do filósofo em detrimento de outros, na seleção de determinadas ideias e no negligenciar de outras, no enfatizar um estilo de escrita - particularmente o aforismo - a despeito de outros.
Todos os textos publicados neste dossiê foram atualizados segundo o acordo ortográfico vigente. Não obstante, no caso de alguns vocábulos estrangeiros e outros próprios da filosofia nietzschiana, optamos por não atualizar pela tradução corrente, a fim de conservar a identidade e o contexto histórico do escrito. Para os nomes próprios adotamos a seguinte orientação: os nomes de autores e pessoas foram conservados na grafia original do período, com exceção de alguns já fixados na ortografia atual.
II
A imprensa brasileira do final do século XIX e início do XX recepciona a obra de Nietzsche em revistas, jornais e almanaques de orientação bastante divergentes. Num primeiro momento, nota-se que o filósofo aparece principalmente em diários e periódicos engajados na divulgação de ideias ditas modernas, entre os quais podemos destacar os diários Gazeta de Notícias Correio da Manhã, as revistas Fon-fon, a Revista de Antropofagia, Festa, a Revista da Semana e, em particular, a revista O Pirralho, periódico literário, político e de humor, fundado por Oswald de Andrade, em 1911, com a intenção de repensar a arte brasileira. Na revista O Pirralho o pensamento de Nietzsche enseja propostas de renovação estética e política, fornece elementos para alavancar uma ruptura com a forma de criar e pensar a arte tradicional, romântica, parnasiana etc. Nessa direção é que Amadeu Amaral publica o texto "O super-homem"; o termo é utilizado no periódico a fim de corroborar a luta pelo civilismo de Rui Barbosa contra a ditadura de Pinheiro Machado.
Entre as diversas referências ao filósofo O Pirralho traz a expressão "nós, os modernos, os supremos, os filhos de Nietzsche", com a qual indica a importância do pensamento nietzschiano para a produção dos intelectuais desse período 5 . Ela aponta para os intelectuais posteriormente considerados modernistas, que então começam a se agrupar. O desconhecido autor da expressão é preciso em suas palavras, indica a quem o texto se dirige em letras garrafais, Ignácio da Costa Ferreira, mais conhecido como Ferrignac, advogado, ilustrador, desenhista, caricaturista e escritor. Com o trabalho intitulado Natureza Dadaísta, participou da Semana de Arte Moderna. Nesse clima cultural que culminará no Modernismo e que pretende, tal como afirma o autor do trecho, "a regeneração estética da terra", Nietzsche vincula-se às mudanças culturais produzidas pelos intelectuais que, nas mais diversas áreas da criatividade, poesia, teatro, música, artes plásticas, buscam uma ruptura com a tradição e a superação dos padrões artísticos da época. Neste horizonte de transição, sua filosofia incide no processo de ruptura e não se limita a uma moda passageira, é antes uma importante fonte de renovação estética. É nessa direção que Oswald de Andrade aponta o livro Amor Imortal, de José Antonio Nogueira, como sendo uma produção de inspiração nietzschiana e algo "novo no nosso meio produtivo", pois "de fato", "não se joga assim Nietzsche à cabeça d'um público habituado a ver estreias pouco complicadas sem ser novo pelo menos". Alinhado com a corrente espiritualista, o autor se vale da ideia da "Volta Eterna" de Nietzsche para pensar uma nova noção de eternidade e imortalidade da alma 6 . Alertando contra esse uso da filosofia de Nietzsche em favor do espiritualismo, Oswald de Andrade afirma que ele se deteve além da conta em Nietzsche, "e pior, [que] em filosofia ficaste a quem dele" 7 .
No entanto, do período da Primeira Guerra Mundial adiante são abundantes e controversas as menções a obra de Nietzsche na imprensa de orientação menos progressista e mais conservadora, seja, por exemplo, na revista católica A Ordem, no jornal Correio Paulistano, bem com diário A Razão, de orientação integralista; onde o chefe do integralismo, Plínio Salgado, declara ver em Nietzsche a violência do individualismo e do egoísmo burguês 8 . Nesses diários e periódicos as referências ao filósofo tendem a associá-lo ao nazifascismo, não raro sua filosofia é interpretada como um instrumento a serviço do imperialismo belicista germânico da época. Muitos de seus textos seguem uma perspectiva reacionária à utilização de sua filosofia realizada por autores como Graça Aranha e Oswald de Andrade. É o caso do texto de Menotti Del Picchia, Schopenhauer e a política, em que o futuro integrante do movimento Verde-Amarelo declara que "as massas populares germânicas vinham sendo trabalhadas por uma filosofia brutal e egoísta, donde ressaltava um pan-germanismo talhado pela vontade de Zaratustra". Assevera ainda uma vez mais a sua posição afirmando que o imperialismo germânico pretendia construir uma raça-superior e que "o método para a consecução" desse objetivo "está todo na velada crueldade do super-homem" 9 .
Assim, esses dois fatores, isto é, a renovação estético-cultural e a reação político-religiosa comparecem nas leituras da obra de Nietzsche desde os autores germanistas, como Silvio Romero, Farias Brito, João Ribeiro, Mário Lima etc. Suas divulgações das ideias germânicas suscitarão reações conservadoras, isto é, contrárias à renovação por eles empreendida no panorama da filosofia no Brasil, na medida em que seu germanismo "abriria uma janela escancarada pela qual entraria 'uma rajada de pensamento livre, de cultura moderna que fecundou numerosos espíritos'" 10 .
Tanto que é justamente em reação aos germanistas que aparece o primeiro artigo inteiramente dedicado a uma análise da filosofia de Nietzsche no Brasil, publicado em 1893, por Julio Erasmo, no diário carioca Gazeta de Notícias; texto aqui transcrito. Em seu artigo, o autor condena "as tendências filosóficas de algumas escolas alemãs que estão surgindo", por se mostrarem "preconizadoras do imoralismo". Julga Nietzsche um pensador aristocrático, cínico, autor de teorias perniciosas e em nada autêntico em suas ideias, mas apenas um reprodutor dos gregos e modernos: "Atualmente", diz o autor, referindo-se aos germanistas, "fala-se com insistência sobre Frederico Nietzsche, o chefe do neo-cinismo, ou dos cínicos aristocráticos". Também discorre sobre a biografia do filósofo, fala de sua moral de nobres e plebeus, mostra dificuldades para traduzir termos como übermensch, vertendo por "sobrehomem", entendido como "o tipo produto de rigorosa seleção". Nesse tom reacionário, considera, por fim, que as teorias de Nietzsche são deletérias, perniciosas, deprimentes e perturbadoras da ordem moral.
Em seguida, transcrevemos o texto de Araripe Júnior, no qual o crítico propõe refletir sobre o sentimento trágico do século XIX, encontrando na obra do jovem Nietzsche, A origem da tragédia, a exposição do sentimento trágico moderno, em particular do século XIX, e não do sentimento trágico grego, como se costuma creditar. Publicado no anuário carioca Almanaque Garnier, em 1904, foi reeditado depois na sua Obra Crítica 11 . O texto é significativo porque segue o rumo da renovação estética em curso, considerando o sentimento trágico a base da obra artística do século XX.
Temos ainda um poema inédito, de Augusto dos Anjos, bastante breve, porém todo dedicado a Nietzsche, publicado no diário pernambucano O Commércio, em 1905 12 . O texto é significativo por se tratar de um poema que não foi incluído na publicação original do livro Eu, de 1912, e também porque retrata bem seu autor: um poeta pré-modernista, difícil de ser localizado, visto quase sempre "entre o fim da poesia simbolista no Brasil e os primeiros sinais de uma poesia moderna que só nascerá em 1922" 13 . Nele, o poeta paraibano homenageia o filósofo, discorre sobre sua vida e morte e questiona, de maneira exclamativa, sua vida de pensador, exclusivamente dedicada à construção do pensamento filosófico, embora abalada pela loucura.
A leitura da obra de Nietzsche em favor de uma renovação estética e política, embora neste caso de caráter elitista e conservadora, é ainda mais visível na produção de Elysio de Carvalho. Ele mesmo se definia como um intelectual fiel à filosofia nietzschiana, com a qual julga ter procurado pensar por conta própria a cultura brasileira. Por essa razão, talvez, em resenha crítica dedicada ao seu livro Modernas correntes estéticas na literatura brasileira, publicada pelo diário O Paiz, seja dito que seu autor "é um dos "bons europeus", de Nietzsche", pois "é como "bom europeu" que é crítico do Brasil" 14 . Não obstante, na verdade, Elysio estava engajado na defesa dos fundamentos históricos, políticos e estéticos de um nacionalismo radical; seu pragmatismo já anuncia Monteiro Lobato e outros intelectuais defensores da siderurgia e da exploração do petróleo brasileiro 15 . Com seu ideal nietzschiano de cultura, no livro O Problema da Cultura, concebe "o niilismo dionisíaco que preconiza o ideal trágico, a cultura estética do eu, o amor fati, a gaia ciência [como] esforço para o estabelecimento de uma civilização verdadeiramente humana" 16 . Entretanto, por trás de seu "niilismo dionisíaco" está "o perfil truculento da alegoria restauradora dos dissidentes: a ideologia do ideal trágico de vida com que se mede o presente emperrado da nação, em contraste com o ufanismo delirante do futuro, marcado pela admiração por todas as formas de poder e de grandeza" 17 . Prova disso é que na revista América Brasileira, por ele produzida e dirigida, a filosofia de Nietzsche comparece principalmente no contexto dos estudos sobre a formação política e cultural brasileira, sendo o Marques de Pombal interpretado como a "imagem" do "superhomem". Ele dá início a um nacionalismo radical cuja base ideológica se concentra na alegoria do heroísmo, isso explica porque considera que "o Marquês de Pombal é, com efeito, um dos mais lídimos exemplares dessa espécie a que Nietzsche chamou de superhumana" 18 .
No ensaio Trágica história de um criador de valores, aqui transcrito, de início Elysio destaca a precedência do pensador em relação à sua obra, considerando que o lado mais atraente do estudo das obras de Nietzsche é o próprio filósofo, sua vida, suas vivências, dores e sofrimentos, sua atitude afirmativa diante da vida tal qual ela é e como poderia ser. Contudo, na contramão dos estudos predominantemente biográficos comum à época, Elysio é um dos primeiros autores brasileiros a tentar uma interpretação dos textos de Nietzsche, para então melhor compreender o filósofo, visto como um pensador de temperamento, conceito este emprestado da filosofia subjetivista ou de confissão (Bekenntnissphilosophie) em oposição à filosofia de conhecimento (Erkenntnissphilosophie), remetidos por ele a Kurt Breysing, um admirador fanático de Nietzsche 19 .
Fábio Luz, escritor anarquista, médico e intelectual atuante na cultura brasileira do momento, critica duramente a renovação estético-cultural de inspiração nietzschiana promovida por Elysio de Carvalho. No texto de sua autoria aqui transcrito, publicado em 1907, no anuário carioca Almanaque do Garnier, o poeta começa apontando Elysio como divulgador das obras de Nietzsche no Brasil, quando então, de fato, apenas poucos conheciam "o autor deZaratustra". Em seguida, com uma crítica sarcástica e virulenta, sugere que "As nebulosidades de Nietzsche, a sua filosofia egoística e dionisíaca, os símbolos e infinitos parágrafos da Aurora, a Origem da Tragédia e oAnticristo precisavam, como livros santos, como alcorões de novos credos, da interpretação dos textos, e Elysio de Carvalho atirou-se a esse trabalho insano de vulgarizar e popularizar suas obras". Nesse sentido, assevera sua crítica acusando a propaganda feita pelo vulgarizador dos símbolos nietzschianos e seus novos valores morais de ser inútil e perniciosa aos jovens. Por fim, julga Elysio de Carvalho como "um fraco tipo do superhomem, com sua adiposidade, e apesar ou por causa dela tem saúde fraca, nefralgias frequentes, irritabilidade neurastênica, enxaquecas que o tornam intratável quando o acometem. Será um representante man das teorias exóticas do individualismo, do egoísmo sublimado do anarquismo transviado, mas não é um superhomem psiquicamente superior, capaz de vencer e esmagar".
Portanto, se de um lado havia quem falasse das ideias estéticas de Nietzsche em favor da renovação, havia de outro quem as mencionasse para reagir politicamente contra essa mesma renovação, a fim de fortalecer a corrente espiritualista, desejosa de retomar e conservar os valores cristãos, sua moral e 'os bons costumes'. É para essa última direção que o texto A estética de Frederico Nietzsche aponta, da autoria do Padre LeonardoMascello, publicado no Jornal do Recife, a 10 de Novembro de 1911. O autor se mostra motivado a escrever sobre o filósofo por causa das inúmeras publicações a seu respeito, como a biografia trazida ao público por sua irmã, Elisabeth Förster. Contudo, discorre apenas rapidamente acerca da vida do pensador, uma vez que seu objetivo é apontar na sua estética alguns defeitos e equívocos. Passa então a uma abordagem da obra Origens da tragédia, recorre aos trabalhos de Ettore G. Zoccoli e Attillio Corsi. Nessa direção, afirma "que em nenhuma das obras de Nietzsche há continuidade harmônica de exposição ou de investigação, a não ser nas Origens da tragédia, o único livro dele que apresenta um desenvolvimento progressivo de uma teoria, até tornar-se quase um tratado". Alega que os críticos dividem as suas concepções crítico-estéticas em dois períodos: um pro e outro contra Wagner. O autor mostra certo domínio dos temas da estética do jovem Nietzsche, embora faça dele um devedor das teorias de Schopenhauer e da música de Wagner mais do que de fato teria sido.
Transcrevemos ainda um texto anônimo, com título Block-Notes Mundial, publicado na revista carioca Fon-fon, em 1918. É um texto significativo por ser uma das primeiras leituras empenhadas em afastar as obras de Nietzsche do imperialismo germânico. Além disso, se mostra importante por mencionar a recepção francesa do pensador.
Em seguida, vê-se que a escritora nietzschiana Albertina Bertha foi uma intelectual atuante e renovadora, seja por sua luta contra a hegemonia masculina nos meios literários da época e a favor do voto feminino e do divórcio20 , seja, também, por sua produção, tanto no sentido de compor romances de inspiração nietzschiana, quanto no sentido de ser a primeira mulher a divulgar e estudar o pensamento do filósofo no Brasil. Em sua conferência realizada no salão nobre do diário carioca Jornal do Commercio, no mês de Agosto de 1914, aqui transcrita, a feminista adverte não ser possível estudar a obra de Nietzsche de maneira fragmentaria, uma vez que "a sua filosofia não obedece a sistemas, não tem ordem, não é catalogada". Daí seguiria, julga a escritora, "a grande dificuldade de ser ele abordado, compreendido e analisado". Faz ainda apontamentos acerca do estilo aforismático do filósofo, considerando que este seria formado por períodos curtos, sintéticos e que muitas vezes nada tem com os antecedentes. Sua conferência seria depois publicada na primeira série de seus Estudos, de 1920, abrindo o livro com o título "Nietzsche". De modo geral, seu estudo sobre o filósofo foi considerado pela crítica como revelador de Nietzsche em nosso meio.
Nele, contudo, a autora nada mais fez do que especular sobre a biografia, a bibliografia e, muito rasteiramente, ratificar alguns preconceitos correntes acerca de algumas ideias já conhecidas da filosofia de Nietzsche na época. Em comparação com autores como Paulo Prado, que menciona o filósofo a fim de com ele corroborar a renovação estética em curso no momento, Albertina Bertha se mostra reacionária, no sentido de considerar que Nietzsche "usa dos mesmos recursos dos ensinamentos cristãos", sendo ele o expoente do mais alto idealismo, em busca da "grande pausa da beleza". Discorre sobre muitos temas de sua filosofia, como a arte, a moral, o niilismo, a mulher, concebe como monista a teoria da vontade de poder.
É nessa direção, justamente, que Lima Barreto, na resenha dedicada ao seu livro Estudos, aqui transcrita, exclama fortemente contra o Nietzsche divulgado por Albertina Bertha. Em particular, protesta irritado e de maneira sarcástica contra a sua comparação do conceito do übermensch com o Nirvana búdico e o Paraíso cristão. Contudo, para contrapor-se ao Nietzsche estudado pela feminista, Lima Barreto acusa o filósofo do "flagelo que vem sendo a guerra de 1914", dizendo que ele "deu à burguesia rapace que nos governa uma filosofia que é a expressão de sua ação". Mais ainda, considera que ele "Exaltou a brutalidade, o cinismo, a amoralidade, a inumanidade e, talvez, a duplicidade" 21 . De fato, Lima Barreto estabeleceu um diálogo tenso com muitos conceitos e ideias de Nietzsche, isso pode ser percebido, em tons diversos, desde as anotações de leituras, artigos, crônicas até a composição de alguns de seus principais personagens de ficção 22 .
O brevíssimo texto de João Ribeiro, O verso, aqui transcrito, publicado em 1923, na revista carioca Fon-fon, expressa a atmosfera de renovação das artes em curso no momento, onde a obra de Nietzsche tem presença constante, como era o caso nas reflexões estéticas do germanista. Tanto é assim que os ensaios de João Ribeiro, publicados no livro Páginas de Estética, de 1905, segundo Elysio de Carvalho manifestam um "gênero tão comum hoje entre os críticos alemães", no qual "Frederico Nietzsche se tornou mestre inexcedível e, ainda mais, o tornou difícil", que, "sem custo [o autor] obteve o que na filosofia nietzschiana se chama a conservação da cultura, entendida como unidade do sentimento, do pensamento e do estilo, como unidade do estilo artístico em todas as manifestações da vida" 23 .
Em seguida, temos o texto Frederico Nietzsche, publicado na revista carioca Fon-fon, em 1933. Embora seja de carácter predominantemente biográfico, ainda assim seu autor, Corrêa Velho, discorre sobre algumas das produções de Nietzsche, julga que ele deixou uma obra inacabada e de aparência caótica. Destaca como obra prima "Assim falava Zaratustra", a qual considera de uma inigualável beleza lírica, e mesmo como um dos mais famosos poemas conhecidos em prosa.
Na sequência, transcrevemos o texto Nietzsche e Getúlio Vargas, publicado no diário carioca A Noite, em 1939. Trata-se de uma entrevista feita por Alvoro de Las Casas para o jornal chileno El Mercurio, reeditada no jornal carioca pelo jornalista Ernani Reis. Na entrevista, Nietzsche aparece como mentor intelectual de Getúlio Vargas, sendo o único filósofo a escapar ao naufrágio dos ídolos, conforme dito pelo próprio Vargas. Em pleno regime do Estado Novo, considera-se que a feição nietzschiana perdura e domina no espírito do ditador brasileiro, ensejando semelhanças entre sua filosofia e o governo autoritário de Vargas.
Com essa mesma tonalidade político-reacionária, temos o texto Nietzsche triunfante, de Hamilton Barata, publicado em 1940, no jornal carioca Gazeta de Notícias. Nele, seu autor procura ler algumas ideias da filosofia de Nietzsche segundo o contexto político brasileiro do momento, aproximando o filósofo a Getúlio Vargas, para assim legitimar seu governo autoritário e seu posicionamento internacional diante da Guerra ora em curso na Europa. A utilização política das ideias do autor de Zaratustra em favor do governo Vargas é a tônica principal do texto, sendo Nietzsche interpretado como o terrível profeta da dominação e da força máscula cuja lei é a sua própria vontade de potência.
Nessa mesma senda, temos o texto Nietzsche em voga, publicado em 1941 pela revista de orientação católica A Ordem, no Rio de Janeiro. Seu autor, o padre Carlos Borromeu, considera que Nietzsche teria negado a moral tradicional, concebendo em seu lugar outra, porém imoral e brutal; se mostra assim reacionário, no sentido de pretender retomar e conservar a moral e os valores da religião cristã, acusando o filósofo de ser responsável pela Guerra ora em curso na Europa.
De maneira semelhante, temos ainda o artigo Frederico Nietzsche, do modernista Renato Almeida, publicado no diário carioca A Manhã, em 1944. Tal como outros publicados no mesmo ano, vem a público a propósito da celebração do centenário de nascimento do filósofo. Alegando identificar certo irracionalismo e mistíssimo no pensamento de Nietzsche, Renato Almeida procura associar sua obra à política nazista. Em sua abordagem, se vale de comentadores como Spengler e Simmel, reage contra a utilização da filosofia de Nietzsche em favor da renovação estética colocada em curso pelo autor modernista Graça Aranha.
Na contramão da insistente associação da obra de Nietzsche com políticas autoritárias, seja de Hitler, Mussolini ou Vargas, temos o artigo O centenário de Nietzsche e o nazismo, de Evaristo Marais Filho, publicado no jornal carioca Diário de Notícias, em 1945. Em oposição às abordagens reacionárias, tão comuns à época, que teimam em associar Nietzsche com o nazifascismo, adiantando o que posteriormente autores como Antonio Candido fará, Evaristo procura tirar algumas conclusões metodológicas e políticas da obra do filósofo contrárias ao espírito nazista. Acusa ainda os suspeitos e apressados divulgadores de sua filosofia, como Will Durant, de injustamente situá-lo como mandante espiritual dos crimes praticados pelos sanguinários bandidos nazifascistas 24 .
Nessa mesma direção segue o texto Nietzsche ainda cresce, de Cleto Seabra Veloso, publicado no jornal carioca Diário de Notícias, em 1945, no qual seu autor procura afastar a obra de Nietzsche das apropriações nazistas.
Por fim, dentro da chave de leitura reacionária, transcrevemos o texto Nietzsche, filósofo da Alemanha nazista, de autoria de João Scapino, publicado no jornal carioca Diário de Notícias, em 1945. Seu autor julga Nietzsche um mostro e filósofo por excelência da Alemanha nazista. Nesse sentido, destaca a teoria da "Vontade do Poder" como sendo um fluxo vital e que serviu como fonte de inspiração a Hitler e Mussolini, sugerindo a crueldade, a agressividade e a política de expansão da Alemanha nazista.
De fato, desde o final do século XIX e início do XX não faltou quem censurasse a formação de uma opinião unilateral e falsa sobre a obra e a personalidade de Nietzsche; denunciando, por exemplo, sua irmã, Elisabeth Förster, de fundar sua glória sobre bases ilegítimas. Como bem admitiu o modernista Sérgio Buarque de Holanda, havia "razão nessa censura, partida principalmente dos homens de Esquerda, dos socialistas". Não obstante, ele mesmo também questiona: "Mas seria, por ventura menos ilegítima e menos superficial a atitude desses mesmos homens quando pretendiam criar um Nietzsche à sua imagem?" 25 .
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, Renato. Frederico Nietzsche. In: A Manhã. Rio de Janeiro, 15 de Outubro de 1944. [ Links ]
ANJOS, Augusto. Soneto. In: O Commércio, Pernambuco, 19 de maio de 1905. [ Links ]
ANÔNIMO. Block-Notes Mundial. In: Fon-fon, Rio de Janeiro, Fevereiro de 1918. [ Links ]
ARARIPE JR., T. A. Obra Crítica de Araripe Júnior. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa, volume V 1911 e Anexos, 1971. [ Links ]
BARATA, Hamilton. Nietzsche triunfante. In: Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 03 de Julho de 1940. [ Links ]
BARRETO, Lima. Estudos. In:. Gazeta de Notícias Rio de Janeiro, 26 de Outubro de 1920. [ Links ]
BARRETO, Tobias. Nem filósofo nem crítico. In: A Província, Pernambuco, 10 de Março de 1876. [ Links ]
BERTHA, Albertina. Nietzsche. In: Estudos. 1ª série. Rio de Janeiro: Jacintho Ribeiro dos Santos Editor, 1920. [ Links ]
BORROMEU, Carlos. Nietzsche em voga. In: A Ordem. Rio de Janeiro, Abril de 1941. [ Links ]
CANDIDO, Antônio. Literatura e sociedade. Rio de Janeiro, Ouro Azul, 12° ed., 2011. [ Links ]
CARPEAUX, Otto Maria. Apresentação. In: Toda Poesia/Augusto dos Anjos. São Paulo, 3. Ed. ver. Paz e Terra, 1995. [ Links ]
CARVALHO, Elysio. Obras de Elysio de Carvalho: ensaios. Brasília, Universa -UCB, 1997. [ Links ]
_________. Pombal e a civilização brasileira. In: América Brasileira, n. 14, Rio de Janeiro, Fevereiro de 1923. [ Links ]
COSTA, Cruz. Contribuições à História das Ideias no Brasil (O desenvolvimento da filosofia no Brasil e a evolução histórica nacional). Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1956. [ Links ]
ERASMO, Julio. O neo-cinismo. In:. Gazeta de Notícias Rio de Janeiro, 20 de Maio de 1893. [ Links ]
FILHO, Evaristo Morais de. O centenário de Nietzsche e o nazismo. In: Notícias. Rio de Janeiro, 04 de Fevereiro de 1945. [ Links ]
FIGUEIREDO, Carmem, L. N. Uma corda sobre o abismo: diálogo entre Lima Barreto e Nietzsche. Alea. v. 6 N. 1 Jan./Jun. 2004 p. 159-173. [ Links ]
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Elisabeth Förster - Nietzsche. In: Folha da Manhã. São Paulo, 19 de Dezembro de 1935. [ Links ]
LEPENIES, Wolf. As três culturas. São Paulo, EdUSP, Vol. 13, 1996. [ Links ]
LUZ, Fábio. Elysio de Carvalho. In Almanaque do Garnir. Rio de Janeiro, 1907. [ Links ]
MARTINS, Anna Faedrich. A produção de autoria feminina: Albertina Bertha e a imprensa periódica. Pontos de Interrogação. Vol. 2, n. 1, jan./jun. 2012, p. 44-58. [ Links ]
MASCELLO, Leonardo. A estética de Frederico Nietzsche. In: Jornal do Recife. Pernambuco, 10 de Novembro de 1911. [ Links ]
NOGUEIRA, José Antonio. Amor imortal. Narrativas de uma dolorosa iniciação nos mistérios da morte e do além. RJ, 3° ed. Livraria da Federação Brasileira, 1925. [ Links ]
NUNES, Cassiano. Elysio de Carvalho e o espírito do seu tempo. In: Obras de Elysio de Carvalho: ensaios., Brasília, Universa -UCB 1997. [ Links ]
PICCHIA, Menotti Del. Schopenhauer e a política. Correio Paulistano. São Paulo, 07 de Maio de 1918. [ Links ]
PRADO, Antonio Arnoni. Itinerário de uma falsa vanguarda: os dissidentes, a Semana de 22 e o Integralismo. Prefácio de Sergio Miceli. SP, Ed. 34, 2010. [ Links ]
REIS, Ernani. Nietzsche e Getúlio Vargas. In: A Noite. Rio de Janeiro, 21 de Junho de 1939. [ Links ]
RIBEIRO, João. O verso. In: Fon-fon. Rio de Janeiro, Dezembro de 1923. [ Links ]
SALGADO, Plínio. Civilizemos a Europa!. A Razão, Fortaleza, 18 de Setembro de 1936. [ Links ]
SCAPINO, Joao. Nietzsche, o filósofo da Alemanha nazista. In: Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 07 de Outubro de 1945. [ Links ]
SILVA JR, Ivo da. "Nietzsche e a cultura brasileira". In: Em busca de um lugar ao sol: Nietzsche e a cultura alemã. São Paulo: Discurso Editorial, 2007. [ Links ]
VELOSO, Seabra Cleto. Nietzsche ainda cresce. In: Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 21 Outubro de 1945. [ Links ]
VELHO, Corrêa. Frederico Nietzsche. In: Fon-fon. Rio de janeiro, 7 de Outubro de 1933. [ Links ]
WEB SITE
BLOG LIRAMUNDO. Pesquisa sobre Augusto dos Anjos. Disponível emhttps://liramundo.wordpress.com/2012/12/09/sobre-nietzsche-e-o-tragico-em-augusto-dos-anjos/ [ Links ]
SITE UOL. Nietzsche: aqui e lá. Entrevista com Scarlett Marton realizado por João Neto. In Revista Filosofia, Editora Escala. Disponível em http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/75/artigo271728-3.asp. [ Links ]
2SILVA JR, Ivo da, "Nietzsche e a cultura brasileira". In: Em busca de um lugar ao sol: Nietzsche e a cultura alemã. São Paulo: Discurso Editorial, 2007, p. 183.
3Cf. "O escritor e o público". In CANDIDO, Antônio. Literatura e sociedade. Rio de Janeiro, Ouro Azul, 12° ed., 2011, p. 83.
4Cf. Nietzsche: aqui e lá. Entrevista com Scarlett Marton. Por João Neto, in Revista Filosofia, Editora Escala (disponível em http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/75/artigo271728-3.asp).
5Edição 238, de 20 de Maio de 1917.
6NOGUEIRA, José Antonio. (1925). Amor imortal. Narrativas de uma dolorosa iniciação nos mistérios da morte e do além. RJ, 3° ed. Livraria da Federação Brasileira.
7ANDRADE, Oswald. O Pirralho, edição 192, 19 de Junho de 1915.
8SALGADO, Plínio. Civilizemos a Europa!A Razão, Fortaleza, 18 de Setembro de 1936. Contra essa reação conservadora, Oswald de Andrade aponta Plínio Salgado como "um autêntico clandestino no Modernismo", procura assim reabilitar Nietzsche afastando-o, no âmbito internacional, das políticas nazifascistas e, no âmbito nacional, de seu político pelo movimento Verde-Amarelo, afirmando que o filósofo "nunca subiria as escadas da Chancelaria do Reich", e "foi sobretudo um grande honesto. Nele se consubstancia historicamente a primeira consciência do homem autônomo que o individualismo iria dar". In Informe sobre o Modernismo. Conferência realizada em 15 de Outubro de 1945, na Unicamp.
9PICCHIA, Menotti Del. Schopenhauer e a políticaCorreio Paulistano. São Paulo, 07 de Maio de 1918.
10COSTA, Cruz. Contribuições à História das Ideias no Brasil (O desenvolvimento da filosofia no Brasil e a evolução histórica nacional). Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1956, p. 297.
11 ARARIPE JR., T. A. Obra Crítica de Araripe Júnior. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa, volume V 1911 e Anexos, 1971, p. 86-89.
12 Poema disponível no blog Liramundo: https://liramundo.wordpress.com/2012/12/09/sobre-nietzsche-e-o-tragico-em-augusto-dos-anjos.
13CARPEAUX, Otto Maria. "Apresentação". In Toda Poesia/Augusto dos Anjos. São Paulo, 3. Ed. ver. Paz e Terra, 1995, p. 11.
14 O Paiz, Novos Livros, 08 de Agosto de 1907, p. 04.
15Cf. NUNES, Cassiano. "Elysio de Carvalho e o espírito do seu tempo". In Obras de Elysio de Carvalho: ensaios. Brasília, Universa -UCB, 1997, p. 13-14.
16CARVALHO, Elysio. Obras de Elysio de Carvalho: ensaios. Brasília, Universa -UCB, 1997, p. 24.
17Conforme aponta o estudo de Antonio Arnoni Prado, Itinerário de uma falsa vanguarda, a renovação promovida por Elysio de Carvalho está alinhada "ao conservadorismo elitista da virada do século, cujas ideias definirão uma facção do Modernismo de 22". Ele "antecipa aqui um panorama literário que não ficará apenas no romance e no teatro de Graça Aranha, ou mesmo no descomedido rasgo ufanista de Toda a América, mas irá além, se compararmos, por exemplo, as teses da América Brasileira (1922) com a linha do Movimento Brasileiro, doManifesto Nhengaçu, da Novíssima ou do ideário do grupo d Lanterna Verde (...). Ver PRADO, Antonio Arnoni.Itinerário de uma falsa vanguarda: os dissidentes, a Semana de 22 e o Integralismo. Prefácio de Sergio Miceli. SP, Ed. 34, 2010, p. 41-49.
18CARVALHO, Elysio. Pombal e a civilização brasileiraAmérica Brasileira, n. 14, Rio de Janeiro, Fevereiro de 1923, p. 42.
19LEPENIES, Wolf. As três culturas. São Paulo, Edusp, Vol. 13, 1996, p. 273.
20MARTINS, Anna Faedrich. A produção de autoria feminina: Albertina Bertha e a imprensa periódica. In Pontos de Interrogação. Vol. 2, n. 1, jan./jun. 2012, p. 44-58.
21BARRETO, Lima. EstudosGazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 26 de Outubro de 1920, 02.
22FIGUEIREDO, C. Uma corda sobre o abismo: diálogo entre Lima Barreto e Nietzsche. Alea. v. 6 N. 1 Jan./Jun. 2004 p. 159-173, p 01.
23CARVALHO, Elysio. "João Ribeiro". In As modernas correntes estéticas na literatura Brasileira. Rio de Janeiro, 1907, p. 289.
24Importa mencionar que essa divulgação, feita na História da filosofia, de Will Durant, foi traduzida por Monteiro Lobato e Godofredo Rangel.
25HOLANDA, Sérgio, B. Elisabeth Förster - NietzscheFolha da Manhã. São Paulo, 19 de Dezembro de 1935, p. 06

Friedrich Nietzsche

RESUMO:
Artigo publicado no diário carioca A Manhã, em 1944. Tal como outros editados no mesmo ano, vem a público a propósito da celebração do centenário de nascimento do filósofo. Alegando certo irracionalismo e misticismo na obra de Nietzsche, o autor procura associar sua obra à política nazista. Em sua abordagem, se vale de comentadores como Spengler e Simmel.
Palavras-Chave: Nietzsche; irracionalismo; misticismo; nazismo

Abstract:

Article published in the daily A Manhã, in 1944, in Rio de Janeiro. Like other published the same year, publicly concerning the celebration of the birth centenary of the philosopher. Identifying certain irrationalism and mysticism in Nietzsche's work, the author tries to associate his work to Nazi policy. In their approach, relies on commentators as Spengler and Simmel.
Key words: Nietzsche; irrationalism; mysticism; nazism
Frederico Nietzsche nasceu há justo um século, em Röcken, não será celebrado hoje na Alemanha nazista, donde foi renegado por ser suspeito de sangue judeu. No entanto, sua moral, segundo a qual a força justifica todas as coisas, é a prática da Gestapo. Desde 1938, Himmler vem servindo o banquete dos eleitos, no qual os feches nazistas se veem repastando a tripaforra. Os cordeirinhos nacionais, a princípio, algumas aves circunvizinhas e depois o gado europeu, tudo foi abatido para o grande regabofe, no qual os fracos foram devorados impiedosamente.
E, sob a vigilância das brigadas da SS, os alemães tiveram de conciliar a existência do altruísmo sobre os princípios agnósticos, para satisfazer o bem coletivo, e do egoísmo sobre o altruísmo, para se superar e atingir a essa raça privilegiada, que deveria dominar o mundo. Essa moral pregada por Nietzsche não pode ser mantida exclusivamente pelas energias individuais, que acabam por se baralhar e se confundir, mas tem de ser garantida pelas forças de assalto e pelos gabinetes de tortura da Gestapo. Só dessa forma se criarão os fanáticos capazes de suster e morrer por essa ordem de coisas.
A loucura genial de Nietzsche, que desejou não ter escrito com palavras, mas com relâmpagos, tentou, em aforismos e epigramas, sintetizar a estranha teoria germanista da força e, ainda que lhe tivesse emprestado uma grande beleza estética, pois Nietzsche foi antes de tudo um artista, não lhe tirou nem a brutalidade nem a crueza. A apologia da rapina conduziria o mundo ao desencadear dessas forças, que Keyserling chama de telúricas, sob as quais os deuses do Wahalla nazista e seus profetas se afundarão no sinistro crepúsculo que se aproxima. A voz de Nietzsche será sempre ouvida pela sua vibração artística, mas a sua essência repugnará os homens do futuro, que só se terão superado se dominarem pela inteligência e pelo sentimento, os imperativos do instinto.
***
Para fixar a figura de Nietzsche, recorro a um conceito de Spengler, segundo o qual ele era quase sempre um determinado, no estilo, no tom e na atitude da sua filosofia por um romantismo retardatário. Na realidade, nele se fundem e se exaltam todas as forças do romantismo e o eu hipertrofiado transborda, não em mero devaneio, mas como expressão da vontade, que se transforma num misticismo novo. Ele tomou a vontade schopenhaueriana, como essência superior, não para fazê-la uma força do aniquilamento, antes a transmudou num valor fundamental, "fato elementar de onde resulta todo o vir-a-ser, toda a existência, toda a ação". Como, porém, ela não tem objeto fora de si mesma, explica Simmel, ela se quer a si própria, isto é, se quer mais forte, vontade do poder. Essa vontade do poder é então alguma coisa de básico, porque justifica a existência, que digo? é a existência, em torno da qual tudo gravita, fundamento do espírito humano, se com ele mesmo não se vai confundir.
Mas, vamos vagarosamente. Para Nietzsche todo o primado da razão é absurdo, ou mesmo tolo. O conhecimento é um estado de equilíbrio espiritual e uma sugestão é sempre o ponto de partida de toda filosofia. Por aí se desvaloriza logo o conceito da verdade e se entra em terreno pragmatista. Nietzsche nos dará sucedâneos, mas o seu antirracionalismo está marcado e Spengler acha que o que mais o ligou a Schopenhauer foi a destruição que este fez da metafísica de grande estilo e parodia involuntariamente o mestre Kant.
Não nos detenhamos nessa rápida viagem, nos domínios de Nietzsche. Há montanhas ásperas e perigosas a galgar, através da transmutação de valores, a que se propõe o ardente pensador. Munamo-nos de vontade, com a qual a personalidade se vai engrandecer, aumentar e explodir. Essa vontade do poder vai querer alguma coisa. Mas Nietzsche olhou em derredor e viu que também estava preso, acorrentado, decadente. Era um escravo e dispôs-se, com a foice da vontade, a quebrar as tremendas cadeias.
Era a religião ensinando o sofrimento. Era a democracia degenerando o estado. Era a arte corrupta e o pessimismo aniquilante. Então, Nietzsche - porque é preciso, e sempre e cada vez mais para a frente afastar-se passo a passo da decadência - nos deu a lição da vitória pela vontade, vencendo todos os entraves, para o que o homem, pela sua própria força, se recupere e se transforme no super-homem.
Não saberia dizer para que, pois Nietzsche aboliu, com Kant, o conhecimento das causas e toda a finalidade, negou depois a Moral, matou a Deus e nos deixou apenas mergulhados no oceano da fatalidade, que nos ensinou a amar. "Amor fati"... Ele destruiu, uma depois da outra, todas as bases do conhecimento e nos abandonou num deserto imenso, apenas guiado pela vontade do poder, que se torna instrumento inútil. E ele mesmo sentiu, não raro, o abismo sem ressonâncias, onde o repouso é impossível e as sombras o perturbaram e tudo quanto trucidou se renovava em perpétuas alucinações.
A vontade queria voar, confessa na "Gaya Scienza". E seu voo mais audaz foi o poema de Zaratustra, cujo símbolo não será por demais reavivar. Aos 30 anos, Zaratustra deixou sua pátria e foi para a montanha, onde viveu dez anos, servido por dois animais - a águia, símbolo do orgulho; a serpente, símbolo da prudência. Quando se tornou rico de sabedoria, desceu a montanha e, no caminho, encontrou o velho eremita e espantou-se de que ele não soubesse que Deus tinha morrido. Na cidade vizinha deparou-lhe o acaso uma multidão, à espera do dançarino de corda, e ele lhe falaram. Depois subiu a montanha e esperou os discípulos e fez discursos, no primeiro dos quais explicou a parábola das Três metamorfoses, segundo as quais é preciso que o homem se torne camelo, leão e criança. Camelo, paciente e humilde, para conseguir os grandes tesouros da vida. Leão, para "agarrar a sua presa de liberdade, lutar com seu Deus e matar o grande dragão". Menino, para ter a inocência, o esquecimento, "uma roda que roda sobre si mesma, um primeiro movimento, uma santa afirmação". E, depois, segue-se todo o evangelho do super-homem, tudo que tem e deve destruir e criar, na transmutação dos valores.
Zaratustra volve à caverna. A ideia de Deus atormenta e ele então raciocina: "Se houvesse um Deus, como não suportaria ser eu um igual. Não há, pois...". E exclama: "Sim, eu sou Zaratustra, o homem sem deus. De mim nascerá o super-homem". Ele é o porta-voz dessa filosofia da vontade do poder. Nenhuma moral, que não seja a da força, dos gatos nasçam tigres, dos sapos e lagartos, dragões e crocodilos. E o poema se desenvolve maravilhoso e surpreendente, até o banquete dos eleitos, na caverna de Zaratustra, em que degustam o cordeiro, trazido pela águia familiar, porque os fracos devem ser devorados. Mas, de súbito surge o leão, doce ao profeta e hostil aos demais. Ao seu rugido os eleitos fogem espavoridos e Zaratustra conclui que seu último pecado foi a piedade pelos homens superiores, mas a aurora nascente o torna igual ao sol da manhã.
Negado qualquer valor ao conhecimento, repelida a religião, a moral, num universo sem causa e sem fim, repleto apenas da alegoria numerosa de Zaratustra, para onde iremos? Situa-nos assim no mais completo materialismo. Spengler viu em Nietzsche um discípulo inconsciente de Darwin, no sentido da seleção pela luta. Eu confesso que os materialistas me decepcionam na maneira mais angustiosa e não encontro como respirar nesse fosso sem saída, onde o homem perde toda a garantia do seu destino e fica esmagado pela contingência sombria. Nietzsche procurou vencê-la, é certo, mas criou uma fantasia apenas, com o exagero fremente dos românticos. O seu super-homem é o sal da terra, assim falou Zaratustra. Aquele que renunciou os preconceitos da religião, da moral, da democracia e do ascetismo: aquele que teve crueldade consigo mesmo e tudo sofreu e tudo venceu, não se resignou, para superar-se, chegou à suma categoria do Super-Homem. E estabeleceu, com tais heróis, a casta dominante, dos sábios criadores de valores.
E esse sábio será um amigo da guerra, que a guerra santifica qualquer coisa, será tudo como o dinamite, como o cinzel do escultor, não conhecerá vestígio de piedade e viverá em contínuo desenvolvimento (sempre o sentido nietzschiano da ascensão), porque a vida é o que se deve superar incessantemente. E, por fim, deve saber rir. Assim falava Zaratustra: "Esta coroa de riso, esta coroa de rosas, avós, irmãos meus, eu vos lanço. Sacrificai o riso - Homens superiores, aprendei a rir!".
O super-homem de Nietzsche deslocou-se do seu individualismo e foi alargar-se na concepção nova de Estado, que se torna um ente coletivo e domina, que se procura superar e absorve e é a essência e forma, o totalismo em suma: o estadismo dos proletários de Moscou, dos fascistas de Mussolini ou dos nazistas de Hitler. Estes, sobretudo, procedem, em linha reta, do misticismo de Nietzsche, cujas origens mergulham no inconsciente radical germânico. Essa fantasia do ariano - ariano que é uma hipótese - serve de escalão para marcar uma impossível superioridade étnica.
O homem não se superou, mas a sua inteligência ideou esse estado sempre maior, que se não é dirigido por super-homens, deve ter qualidades de perfeição, que o distancie das grandes massas. O corolário da escravidão dos médios parece inalterável. E assim do mais agudo individualismo brota o mais extremo coletivismo. O eterno retorno.
Para Nietzsche, o universo se faz e refaz, através de equilíbrios para viver, mas esses se repetem em determinadas circunstâncias, num processo, cuja constante é o próprio caos. Nessa evolução, que é uma repetição, o caos é a condição do eterno retorno a séries idênticas, é a lei do mesmo círculo. Só a variedade das condições, determinadas por esse caos, é que impõe a igualdade dos mesmos acontecimentos, deflagrados pelo conflito de forças, cujo equilíbrio é função da vontade do poder. E isso sem finalismo, mesmo sem fim...
***
Nietzsche não foi, como pretendeu, um transmutador de valores, mas um criador de forças díspares e estranhas, que se perdiam numa interminável agitação, afinal infecunda e inútil. A sua filosofia nos deixa apenas essa sensação de inquietude, nunca nos satisfaz. As obras são todas precárias, sem finalismo, e o próprio super-homem é um meio e não um fim.
Para que atingir essa superioridade? Por si mesma. É preciso amar a vida sem causa e sem fim, amor ao destino devorador. Mas, para quê? Pela própria realidade da vida. O argumento se consome a si mesmo. Chegamos a um orientalismo, sem nirvana, pois o não-ser repugna ao heroísmo inútil de Nietzsche. O misticismo da vida, como a alegria da prisão.
No criador de Zaratustra nada resiste ao estranho gigantismo de suas concepções e por isso Graça Aranha, não sem certa injustiça, o julgou um "parvenu", com um prurido de aparecer, que se manifesta na "ostentação da cultura, na declamação em voz alta, na sua intenção de refazer, de renovar". Depois, fica apenas dessa filosofia o disforme e o monstruoso, sem alma e sem esperança. Ele quis vencer o ceticismo, com que Kant secara a razão humana, inutilizando o ilusionismo das fórmulas, mas atingiu apenas a sombra da melancolia.
O irracionalismo de Nietzsche chegou às mais inconcebíveis conclusões e, negando todas as forças da razão, teve de substituir o balizamento da filosofia. Foi a sua transmutação de valores. Mas, que colocou no lugar de que arrasara? Um destino cego, ignorante, beático, petulante e louco: "uma coisa é impossível em toda parte, e essa coisa tem um sentido nacional", falava Zaratustra. Quis realizar Hitler e o mundo está sangrando.
***
Nietzsche foi sobretudo um artista. Não só o poeta de Zaratustra, mas, principalmente, o jogador de formas de pensamento. A agilidade, com que admirava o conceito ou a ideia, buscando menos o seu valor do que os efeitos da fantasia livre e audaz, era sempre uma surpresa nova e incomparável.
Nietzsche foi um dançarino formidável. Ele saltava, ele pulava, indomável e alígero, ao ímpeto duma música interior, a que não faltavam os acentos graves da loucura em derredor. O seu gênio amava a plástica pelo movimento e as suas imagens se agitam, lançam-se, rodopiam e caem. Essa força de ascensão lhe determinou o super-homem, que é movimento para cima. Poesia ardente de aspiração, do ser que se sublima, para superar-se a si próprio. Como? Pela ilusão. A ilusão do dançarino. "Dançarino acorrentado", foi a sua concepção do artista e ele próprio a realizou.
A sua eterna contradição, a displicência com que lançava as ideias mais opostas e conciliava as mais impossíveis antinomias, dão bem o sentido da irrealidade com que faz a sua poesia. Por isso, muitos lhe recusam o título de filósofo. Pouco importam os sistematizadores. A sua filosofia foi uma expressão de arte, que se inspirou na vida, não para explicá-la, mas para exaltá-la. A sua constante foi a aspiração e, se o eterno descontentamento o fez pessimista, ele vence essa essência, sobrepondo uma outra, que tornava mais alta e mais perfeita. E se foi, de salto em salto, até à magia de Zaratustra. E, no último salto, chegou à loucura! Infelizmente essa loucura contaminaria e chegaria ao desespero na prática por homens possessos.
O espetáculo do universo lhe pareceu sempre um deslumbramento e quis integrar-se nele como uma força irredutível. A impossibilidade não o venceu e, se a filosofia lhe recuou o impulso ansiado, a arte foi o recurso supremo. E ele mesmo criou os instrumentos da sua mágica: o super-homem, a "gaya scienza", o "amor fati", a arte apolínia, a fantasmagoria de Zaratustra. Dançou entre os fantasmas da sua poesia, como um semi-deus, senhor da realidade que brotava do seu lirismo fremente e foi um criador contínuo, infatigável e absoluto. Criador de quê? De formas estéticas, de beleza, por que a sua filosofia só tem a emoção. Aliás, ele tinha que todas as sensações se deviam transmutar numa única sensação, de beleza, pela qual se chegaria ao paraíso de Zaratustra. O Mundo como encantamento!
Mas, em Nietzsche há ainda outra emoção, maior talvez do que a da poesia de Zaratustra - esse é um poema imortal - é a da sua própria tragédia. Esse homem, que sofreu toda a melancolia da solidão, cujo orgulho o separou dos homens, e teve de procurar na paisagem o seu próprio deslumbramento, vendo no fundo dos lagos os olhos da solidão, que o miravam, numa atração sombria, esse homem que viveu perturbado pelos seus próprios fantasmas, cuja morte anunciava a plenos pulmões, para melhor convencer, esse cantor da alegria, submerso na tristeza, divinizador da saúde, mas irremediavelmente doente, esse senhor da vida, que era incapaz de viver, esse Nietzsche superou-se pelo sofrimento e o seu canto tem a amargura trágica das vozes dos mártires eternos. Há no seu destino um lirismo de dor inesgotável. Odiava os alemães e foi um dos inspiradores de seu sonho de domínio...
O próprio gênio foi, para ele, uma perturbação. Tudo quis e a tudo aspirou, mas teve de confundir-se na música das suas próprias palavras, e foi o que lhe ficou da sua construção audaciosa. O seu romantismo possesso conduziu-o a divinizar o homem, mas falhou a lição de Zaratustra, e o mundo a amaldiçoou. A sua caverna, como a do seu profeta ficou deserta, mas a força do seu pensamento, como obra de arte, "é ardente e forte, sol da manhã que surge das montanhas sombrias".

Brasil, Éden desmoronado: desastres naturais no Brasil contemporâneo




RESUMO
O presente artigo discute a permanência de antigos mitos edênicos na sociedade brasileira assim como a relação destes, com o ambiente, a sociedade e as explicações utilizadas para diferentes desastres naturais ocorridos no início do século XXI, em território brasileiro. A perspectiva se justifica a partir das relações que se estabelecem entre homem e natureza, relações mediadas pela postura do primeiro, construída cultural e socialmente. O artigo propõe a entender, também, a origem histórica e cultural do mito do Éden – paraíso terrestre – e como este foi projetado pelos portugueses no momento da conquista do Novo Mundo. Esta perspectiva nos permite uma melhor compreensão da atual relação homem/natureza na sociedade brasileira, configurada, agora, por processos contemporâneos de mudança ambiental global e, pelos novos riscos e vulnerabilidades deles decorrentes tendo como área de estudo a Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte Paulista.
Palavras-Chave: Ambiente; Mudança ambiental global; Sociedade; Mito; Risco.

RESUMEN
Este artículo discute la permanencia de antiguos mitos edénicos, en la sociedad brasileña y su relación con el ambiente, la sociedad y las explicaciones utilizadas para los diferentes desastres naturales ocurridos en inicio de este siglo, en territorio brasileño. La visión se justifica a partir de las relaciones establecidas entre hombre y naturaleza, mediatizadas por el primero y construidas social y culturalmente. El articulo también se propone a entender el origen histórico y cultural del mito del Edén – paraíso terrestre – y la forma como fue proyectado por los portugueses en el momento de la conquista del Nuevo Mundo. Esta perspectiva nos permite un mejor entendimiento de la relación actual hombre/naturaleza en la sociedad brasileña, ahora, configurada por procesos contemporáneos de mudanza ambiental global y por los nuevos riesgos y vulnerabilidades, de ellos decurrentes. El área de estudio es la Región Metropolitana del Valle del Río Paraíba y Litoral Norte del Estado de São Paulo, Brasil.
Palabra clave: Medio ambiente; Cambio ambiental global; Sociedad; Mito; Riesgo.



Introdução
As terras brasílicas encontradas pelos portugueses em 1500 significaram o coroamento de um projeto pela busca da terra edênica, representação do tão sonhado paraíso terrestre. Impulsionada pelo viés econômico, aguçado pelo desejo por riquezas naturais, a epopeia expansionista europeia foi, sem dúvida, regada pelo imaginário edenista. A busca de terras e riquezas fica evidente quando se lê a carta de Caminha, admirado pela natureza e abastança das terras do Novo Mundo.
Esse discurso ecoou pelo tempo, ganhando amplitude histórica, mesmo quando as evidências do presente mostram o contrário. Em 2007, dados do EM-DAT (2007) mostraram 150 registros de desastres naturais no Brasil, no período de 1900 a 2006 (MARCELINO, 2007).
Inundações, vendavais, tornados, granizos, escorregamentos e até terremotos tem sido constantes nos noticiários brasileiros. Do total de ocorrências, segundo estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), 84% foram computados a partir da década de 1970, demonstrando um aumento considerável de desastres nas últimas décadas, com 8.183 vítimas fatais e um prejuízo de aproximadamente 10 bilhões de dólares (Idem).
No entanto, parece que o mito edênico anestesiou a percepção a ponto de termos a convicção que as terras brasileiras, além de "bonita por natureza", são "abençoadas por Deus". Os efeitos generalizantes dessa ideia edênica marcam um entendimento muito particular das questões ambientais no Brasil. Este discurso estabelece efeitos de verdade, normas e princípios reguladores, mesmo com a evidência da exposição da população brasileira aos impactos naturais, em decorrência das mudanças climáticas, conforme edição do relatório Risco Mundial 2013, em Bonn, na Alemanha, financiado pela Fundação Meio Ambiente e Desenvolvimento da Renânia do Norte-Vestfália.
Aceitar que o Brasil está sujeito a riscos naturais significa o primeiro passo para prover soluções aos desafios provocados pelos desastres naturais. Mas isso implica, necessariamente, em abandonar o mito do éden que habita o imaginário social brasileiro e encarar a difícil realidade que até o éden está suscetível aos desastres naturais na contemporaneidade.

Brasil, mito de fundação
O achamento da nova terra, além de significar a expansão da riqueza das coroas europeias, representou também a dilatação do Evangelho, proposta pela Igreja, abalada pela crescente onda de protestantismo. Além disso, a Europa enfrentava uma crise generalizada antes do quinhentismo, forte providência para a imaginação, conforme podemos apreender do texto a seguir:
A miséria e a fome criaram um meio propício para a busca de um paraíso terrestre; um paraíso de delícias (Gên. 2,8-14), em que a abundância de recursos vegetais, animais e minerais permitiu uma vida tranquila, sugerida pelo próprio texto bíblico (Gên. 2,7-17). Imagens de um jardim do Éden, idealizado pelo homem, povoam o imaginário europeu que concebe este espaço dentro de uma geografia visionária, que em termos físicos é uma síntese da literatura clássica e das narrativas bíblicas (...). Uma natureza abundante, repleta de árvores frutíferas, rios, fontes e lagos com água límpida, paisagens verdejantes entoadas pelos cantos dos pássaros eram o quando edênico a ser conquistado (ASSUNÇÃO, 2001, p. 35).
A busca de riquezas, que norteou os rumos das navegações quinhentistas e a visão de paraíso, instrumentos da investida no além-mar, foi mergulhada num discurso que, segundo Roland Barthes, podemos chamar de dimensão mítica. De acordo com Barthes, o mito surge a partir de contingências históricas e se impõe, de forma intencional, numa realidade, como espaço de construção, modificado por meio de representações (BARTHES, 1985).
Coroados pelo (re)descobrimento do Novo Mundo, os ibéricos confirmaram os presságios das paradisíacas e sedutoras terras prenunciadas nas Escrituras. A representação que se tinha do paraíso edênico foi transplantada para as terras da América. De mera sugestão metafórica, o mito ganhou força e a crença passou a se tornar ideia fixa.
O impacto da visão narrada na carta de Pero Vaz de Caminha associou mito e realidade. Essa associação acabou dando sustentação ao imaginário criativo. A natureza do lugar, que realçou os olhos no primeiro impacto, deu respaldo à imaginação, obcecada pela idealização da terra. A mente, povoada historicamente pelas narrativas míticas do paraíso terreal, acabou por fazer sentido. O europeu viu o que a matriz mental o permitiu ver.
Com a chegada dos primeiros jesuítas, ainda no século XVI, sedimentava-se na mentalidade europeia a perspectiva em relação à natureza deslumbrante, pura, intocada e bela do paraíso tropical tão idealizado pelos inacianos. Partindo do pressuposto que a Europa seria um "Continente Perdido" contaminado pela "infidelidade", e visando à manutenção de seu caráter evangelizador universalizante, a Igreja Romana abraçou os projetos expansionistas das potências europeias. Assim, o novo mundo oferece-se como campo aberto para esse processo, cabendo, principalmente à Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada por Santo Inácio de Loyola em 1538, promover a obra de cristianização dos índios e colonos, assegurada pela Coroa Portuguesa, por meio da instituição do "catequismo" (NEVES, 2007, p.127).
Os padres da Companhia de Jesus, preocupados com a evangelização dos indígenas, escreviam inúmeras cartas a seus superiores e irmãos europeus, contando em minúcias seus percalços com o processo de cristianização dos silvícolas, narrando o cotidiano colonial e não raras vezes demonstrando admiração e respeito ante uma natureza bravia e indomada.
É bastante conhecida e relativamente famosa uma carta de José de Anchieta endereçada ao Padre Diego Laynes, de Roma. Anchieta escreveu de São Vicente, em maio de 1560, dezessete longas páginas com descrição de bichos, mata, clima e toda natureza das "terras dos Brasis". Em muitas passagens da carta, Anchieta admira-se da diversidade da fauna brasileira:
No interior das terras acham-se cobras de extraordinário tamanho, a que os Índios chamam sucurijuba, que vivem quase sempre nos rios, onde elas apanham para comer os animais terrestres que com frequência os atravessam a nado, mas as vezes saem a terra e os atacam nas veredas por onde costumam passar dum lado para o outro. Não é fácil crer na grossura do seu corpo. Engolem um veado inteiro e ainda maiores animais. Coisa comprovada por todos. E alguns irmãos nossos o viram com espanto; e um deles, vendo uma cobra a nadar, julgou que fosse o mastro de um navio (LEITE, 1954: apêndice VI: VI).
Em outra passagem dessa mesma carta, e após detalhar os caprichos dos ventos e das chuvas, da candura de papagaios, passarinhos e borboletas, ou deter-se na descrição de magníficas onças pintadas e ferozes, Anchieta se rende às maravilhas divinas de uma terra tocada pelas mãos do criador:
Até nas pedras há com que se admirar e, portanto exaltar a onipotência de Deus Nosso Senhor, sobretudo uma, útil para afiar espadas; mas tem de maravilhoso que se presta a ser tratada como maleável, e, qualquer parte que dela se toque, move-se como encaixe, de maneira que não parece uma pedra só, mas muitas, pegadas entre si por diversas junturas (LEITE, 1954: apêndice VI: XVI).
Em outro momento dessa mesma correspondência, o jesuíta dedica espaços para ressaltar as maravilhas da mata, das árvores, enfim, do ambiente. Árvores, raízes e frutos da terra, segundo o jesuíta, teriam vastas propriedades curativas, assinalando um aprendizado assimilado dos indígenas, e uma busca constante de aproximação com uma natureza solidária e generosa:
Das árvores, parece digna de menção (embora haja outras que destilam líquidos semelhantes à resina, úteis para remédios), uma que dá um suco suavíssimo, que querem seja bálsamo. Escorre a princípio como óleo por orifícios abertos pelo caruncho ou também por incisuras feitas por facas e machados, e depois coalha e parece tomar a forma de bálsamo. Exala cheiro não demasiado, mas suavíssimo, e é muitíssimo próprio para curar feridas, de maneira que em pouco tempo nem sinal fica da cicatriz (LEITE, 1954: apêndice VI: XV).
Em seu relato, Anchieta enfatiza a bondade do clima, a suavidade das estações, a abundância das chuvas e amenidade do inverno. No entanto, transparece também em seu discurso, em várias passagens, um sentimento de medo e respeito por uma natureza primitiva, selvagem, capaz de deflagrar tempestades tortuosas em momentos distintos e inusitados:
Não há muitos dias, estando em Piratininga, depois do por do sol, de repente começou a turvar-se o ar, a enevoar-se o céu, a amiudarem-se os trovões e os relâmpagos; o vento sul envolveu a terra até chegar ao nordeste, donde quase sempre costuma vir a tempestade, ganhou tal violência que parecia o Senhor ameaçar com a destruição. Abalou casas, arrebatou telhados, derrubou matos, arrancou pelas raízes grandíssimas árvores, partiu ao meio ou destroçou outras, de maneira que nos matos se taparam os caminhos, sem ficar nenhum (LEITE, 1954: apêndice VI: II).
Torna-se importante enfatizar o quanto de medo e deslumbramento jesuítas e colonizadores vivenciaram em relação à natureza inóspita dos trópicos, ou das "terras dos Brasis", conforme a fala da época. Religiosos e viajantes, cada qual a seu modo, buscavam decifrar as incógnitas de um mundo único, princípio edênico que, tanto na América Portuguesa quanto na América Espanhola foi capaz de traduzir as expectativas desses ocupantes "estrangeiros".
Cada Coroa europeia, a sua maneira, imprimiu no espaço do Novo Mundo a sua marca. Cidades organizadas, planejadas e estruturalmente pensadas marcaram o zelo minucioso e previdente da colonização espanhola na América (HOLANDA, 1969, p. 62). Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, revela o cuidado que os conquistadores castelhanos tiveram na fundação das cidades na América:
Na procura do lugar que se fosse povoar cumpria, antes de tudo, verificar com cuidado as regiões mais saudáveis, pela abundância de homens velhos e moços, de boa compleição, disposição e cor, e sem enfermidades; de animais sãos e de competente tamanho, frutos e mantimentos sadios; onde não houvesse coisas peçonhentas e nocivas; de boa e feliz constelação; o céu claro e benigno, o ar puro e suave. Se fosse na marinha, era preciso ter em consideração o abrigo, a profundidade, e a capacidade de defesa do porto e, quando possível, que o mar não batesse da parte do sul ou do poente. Para as povoações de terra dentro, não se escolhessem lugares demasiado altos, expostos aos ventos e de acesso difícil; nem muito baixos, que costumam ser enfermiços, mas sim os que se achassem a altura mediana, descobertos para os ventos de norte e sul. Se houvesse serras, que fosse pela banda do levante e poente. Caso recaísse a escolha sobre localidade à beira de um rio, ficasse ela de modo que, ao sair o sol, desse primeiro na povoação e só depois nas águas (HOLANDA, 1969, p. 63).
Por outro lado, a nudez e a inocência indígena deram aos portugueses direitos de concretização da posse. Baseados na fé cristã, os portugueses se estabeleciam, munidos de prerrogativas, base essencial para que o éden fosse explorado. O delírio dos primeiros momentos determinou a cultura de exploração, ofuscando a sensatez e a consciência dos proprietários na lida com a terra. Otimistas, os portugueses seguiram sua forma de produzir, convictos da inesgotável imensidão das terras e na perenidade de sua fertilidade. Contrariados por uma realidade, nossa economia agrário-exportadora seguiu seu curso permeada por crises, revelando as sementes de sua decadência (STEIN, 1990, p. 253).
Os estudiosos, tentando entender esse fenômeno, atribuíram a crise do café do século XIX às antigas práticas de desflorestamento, conjugadas às visitas periódicas de formigas, gafanhotos e outras pragas aos cafezais. Atrelada a esses fatores podemos acrescentar à lista dos motivos que levaram ao colapso do café, a insuficiência da força de trabalho escrava e sua consequente valorização; bem como as flutuações do preço do café no mercado internacional e o endividamento dos produtores.
Mas foi, sobretudo, o esgotamento das terras produtivas e o "conjunto dos métodos de cultivo empregados que minaram progressivamente o suporte material e ambiental dessa produção" (PETRUCCELLI, 1994, p. 23). No entanto, os agricultores dos novecentos, ofuscados pela força do mito edênico "procuravam a razão do declínio (da produção) no valor dos juros dos empréstimos agrícolas ou na falta de máquinas de tratamento dos grãos de café" (idem). Certamente esses foram fatores determinantes. No entanto, os aturdidos produtores não conseguiam enxergar que o mais categórico dos motivos estava na forma de destruição do meio ambiente (idem).
Os métodos inalterados de cultivo manual eram aplicados na forma de tentativa e erro. Tentaram-se e erraram-se sucessivas vezes, notadamente porque a forma de explorar e ocupar a terra se fundamentou no empirismo. Os métodos agrícolas utilizados no Brasil foram baseados em costumes locais. Os mais experientes aconselhavam: "se o tornozelo e a metade da barriga da perna afundam no humo debaixo da árvore, o solo é bom" (STEIN, 1990, p. 58). Já os menos preocupados advertiam: "fiz as coisas dessa maneira, deixe que a próxima geração faça como lhe agradar" (STEIN, 1990, p. 256). Essa visão, juntamente com a propriedade, era transferida às novas gerações.
As palmeiras imperiais, símbolo de opulência, obscureciam a lucidez do manejo. A baronesa do Paty sarcasticamente observou nos idos de 1862 que as ideias do filho ainda eram as do pai, a quem o avô persuadiu (apud STEIN, 1990, p. 78). Lucidamente observou a baronesa em seu inventário em 1868: "podemos ainda ver estabelecimentos, erguidos há mais de 60 anos, dirigidos pelos mesmos métodos que deixam à natureza e à lenta ação do tempo o trabalho da produção" (STEIN, 1990, p. 78). O interessante é que essa percepção revelava que poucas foram as ações tomadas para adequar as formas de produção ao novo status mercantil das terras, a partir da Lei de 1850. Nesse momento, as terras passaram a fazer parte oficialmente do circuito mercantil, com estabelecimento das fronteiras das propriedades.
No entanto, apesar da valorização das terras e da delimitação das fronteiras geográficas não houve mudanças na concepção de explorar as terras. A disposição dos cafezais em colunas verticais ainda era praticada. O desastre ocasionado pelas chuvas torrenciais em 1878 permitiu a um observador notar que, "Cada vez que chove (...), uma cascata desce até a base de cada fileira de cafeeiros, ajudada na sua descida pelos montes de capim deixados pelos escravos em sua capina entre as fileiras de café. Imagine com o que deve parecer se o morro for íngreme e elevado e o solo, arenoso" (STEIN, 1990, p. 259).
Não foi preciso imaginarmos. Vimos com nossos próprios olhos, embalados pela celebração do Novo Ano inaugurado em 2009, "a revolta da natureza". Santa Catarina terminou o ano de 2008 em destroços. Os dados alarmantes deram conta que desde setembro de 2008 até o começo de 2009, 135 pessoas morreram no Estado por causa das chuvas. Mais de 97% das mortes ocorreram por soterramentos, afetando um terço do território e atingindo mais de 2 milhões de pessoas (34% da população total). Considerando a magnitude do desastre de 2008/2009 (Figura 1), a Defesa Civil concluiu que este foi o pior da história de Santa Catarina (senado.leg.br/comissões CMMC/AP/AP20090814_Def_Civil_SC). Em Minas Gerais, os estragos, no mesmo ano, bem menores, foram também preocupantes, 25 pessoas perderam suas vidas.


O Relatório do CREA (2011/09) divulgou dados da tragédia ocorrida na Região Serrana em janeiro/2011, onde morreram mais de 900 pessoas, e restaram milhares de desabrigados. Em dezembro de 2013, Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, foi um dos municípios mais atingidos pelo temporal. Cerca de 70% das ocorrências foram relacionadas a deslizamentos de encostas, segundo a defesa civil (O Fluminense, 11/12/2013).
Poderíamos estender esses exemplos a outras áreas. Quem poderia imaginar o Nordeste, região árida do Brasil, coberta de água? Em 27 de janeiro de 2011, uma forte chuva fez transbordar o canal do rio Granjeiro, no Crato, Cariri cearense. "O sertão vai virar mar", desejo cantado em prosa, se profetizou. Isso faz-nos lembrar da composição Súplica cearense (1964), considerada hino do nordestino, imortalizada por Luiz Gonzaga. Na canção, o exagero do pedido ou a força da fé sobrepõem às outras condições, ligadas à relação empírica homem/natureza.
Súplica cearense
Luiz Gonzaga
Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar
Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol se arretirou
Fazendo cair toda chuva que há
Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedir pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chão
Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe,
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração
Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água
E ter-lhe pedido cheinho de mágoa
Pro sol inclemente se arretirar
Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno
Desculpe eu pedir para acabar com o inferno
Que sempre queimou o meu Ceará
O Brasil feito em mito revelava sua outra face, contrariando Rocha Pitta, considerado o primeiro historiador do Brasil, convicto das potencialidades naturais do país, em 1930 pronunciava:
em nenhuma outra região se mostra o céu mais sereno, nem madruga mais bela a aurora; o sol em nenhum outro hemisfério tem raios tão dourados, nem os reflexos noturnos tão brilhantes; as estrelas são mais benignas e se mostram sempre alegres (...) as águas são mais puras; é enfim o Brasil Terreal Paraíso descoberto, onde tem nascimento e curso os maiores rios; domina salutífero o clima; influem benignos astros e respiram auras suavíssimas, que o fazem fértil e povoado de inumeráveis habitadores (CHAUÍ, 2004, p. 6).
A representação positiva das paisagens do Brasil, tão alardeada aos quatro cantos, surtiu grande efeito. Nos idos de 1995 uma pesquisa de opinião revelava a representação da homogeneidade do discurso. Dos entrevistados, 60% dos brasileiros sentiam orgulho do país. Dos motivos da soberba, a natureza liderava o ranque (Cf. CHAUÍ, 2004, p. 6). A estatística simplesmente demonstrou que o mito fundador se conserva presente no imaginário do brasileiro, porém, ressignificado. A grande maioria das respostas classificadas como "natureza" coincidia com as características da tradição edênica. Alguns exemplos são claros, ao mencionar a terra maravilhosa, o céu, o ar puro, a beleza das praias, as matas, a Amazônia, a fertilidade do solo, o país abençoado, o tamanho, as riquezas naturais, o clima, a ausência de terremotos e furacões. Esta visão paradisíaca do país, lembra Carvalho, também foi estigmatizada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues quando proferiu: "Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem" (CARVALHO, 2007).
Apesar da longa distância do mito de origem, o Brasil ainda continua sendo concebido como "um dom de Deus e da natureza" (CHAUÍ, 2004, p. 8). O lema da terra abençoada, em plena ditadura militar, ganhou força com o grupo musical Os Incríveis. Representado por Dom e Ravel, o hit entoava: "O Céu do meu Brasil tem mais estrelas, O sol do meu país, mais esplendor; A mão de Deus abençoou; Em terras brasileiras vou plantar amor". O imaginário fundador continuava embasando nossa forma de lidar com as nossas potencialidades naturais e cada vez mais se acreditava que ''em se plantando tudo dá''. Essa convicção, apesar de senso comum, não era um consenso no país. Graciliano Ramos, por exemplo, conta-nos consternado, em suas memórias de infância, os resultados de uma triste rotina secular:
Mergulhei numa comprida manhã de inverno. O açude apojado, a roça verde, amarela e vermelha, os caminhos estreitos mudados em riachos, ficaram-me na alma. Depois veio a seca. Árvores pelaram-se, bichos morreram, o sol cresceu, bebeu as águas, e ventos mornos espalharam na terra queimada uma poeira cinzenta. Olhando-me por dentro, percebo com desgosto a segunda paisagem. Devastação, calcinação. Nesta via lenta sinto-me coagido entre duas situações contraditórias – uma longa noite, um dia imenso e enervante, favorável à modorra (apud NEVES, 2006, p. 16).
Infelizmente, as vozes daqueles que alertavam sobre a rua de mão única se esvaíram frente à secular forma de exploração das terras. O que permaneceu foi a convicção de que tínhamos nas mãos as bênçãos da fundação. Como entender a manutenção dessa ideia? Como entender a representação positiva da nossa imagem frente a tantas evidências contrárias, na nossa contemporaneidade? Como entender a destruição das cidades de São Luiz do Paraitinga e de Angra dos Reis atingidas pelas fortes chuvas durante as comemorações de réveillon de 2010? E o soterramento das cidades da Região Serrana do Rio de Janeiro durante o verão 2010/2011? O que estaria acontecendo com o "país tropical abençoado por Deus e lindo por natureza"? O dilúvio que atinge o país a cada mês de dezembro marca de forma indelével o rompimento da harmonia e o retorno ao Caos.
Estaria o Brasil, terra bendita, sendo renegada pelos deuses? O que teria acontecido com os bons presságios? O certo é que assistimos, aturdidos, à "revolta da natureza". O Brasil da fundação, éden versado em prosa e versos se desmorona na contemporaneidade, deixando a todos consternados.

Éden ou purgatório?
Os acontecimentos dos últimos anos vêm nos apresentando uma dura realidade que não passava nem remotamente pelas cabeças dos primeiros habitantes do País, nem tampouco na mente dos colonizadores.
Na verdade, os processos de mudança ambiental global que se materializa sob a forma de impactos locais de eventos climáticos extremos como os observados, a cada verão, em todo o território nacional – seja pelas inundações e deslizamentos de encostas no Sudeste e no Nordeste ou pelas secas no Norte e no Sul – é algo que não fazia parte do imaginário brasileiro, apesar de suas ocorrências não serem propriamente novidade.
Diversos pesquisadores das mais diferentes áreas do conhecimento vêm sistematicamente alertando para o fato de que as mudanças ambientais globais serão especialmente impactantes sobre setores como a economia e a política, assim como, também, a saúde humana (HOGAN; TOLMASQUIM, 2001; GIDDENS, 2008). Todavia, a percepção pública desses impactos tem sido pouco considerada na literatura acadêmica, assim como a análise das construções conceituais e culturais associadas com o ''direito'' outorgado à espécie humana para dominar as demais espécies e o planeta como um todo.
A produção acadêmica especializada também vem revelando que, para complicar ainda mais o cenário, os impactos das mudanças ambientais globais não se distribuirão de forma equilibrada, fazendo com que algumas áreas permaneçam mais intensamente atingidas e afetadas do que outras. Dentre as áreas que serão especialmente impactadas, as regiões costeiras se apresentam como as mais sensíveis e vulneráveis (CONFALONIERI, 2005; HOGAN; TOLMASQUIM, 2001).
As regiões costeiras brasileiras, mais especificamente, vêm se destacando por um histórico – desde o Período Colonial, com aceleração e intensificação dos processos no período mais recente – de intensas e profundas mudanças ambientais e, consequentemente, sociais e culturais em função de alterações na cobertura e no uso do solo, das novas configurações do espaço – com uma significativa predominância do padrão de urbanização dispersa – e da intensiva utilização dos recursos naturais – em especial dos combustíveis fósseis como o petróleo e o gás natural (BARBOSA et al., 2009; 2010; FERREIRA et al., 2011; HOGAN et al., 2008; FREIRE DE MELLO; HOGAN, 2007; FREIRE DE MELLO, 2008; FREIRE DE MELLO, 2010).
Já a forma portuguesa de ocupação do espaço seguiu instintos naturais. Sem regra, sem ordem, com muito desleixo e nenhum método, seguiu-se tomando as terras dos nativos. Importando métodos pouco laboriosos da matriz europeia, os portugueses feitorizavam mais que colonizavam (HOLANDA, 1969):
A rotina e não a razão abstrata foi o princípio que norteou os portugueses, nesta com em tantas outras expressões de sua atividade colonizadora. Preferiam agir por experiências sucessivas, nem sempre coordenadas umas às outras, a traçar de antemão um plano para segui-lo até o fim (...). Nenhum rigor, nenhum método, nenhuma previdência, sempre esse significativo abandono que exprime a palavra "desleixo" (idem, p.76).
Se analisarmos o caso específico do Litoral Norte do Estado de São Paulo, região formada pelos municípios de Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba, famosa por suas belíssimas paisagens litorâneas e por ser um dos principais polos de atração turística no estado e no Brasil – estudos mostram que a população flutuante presente nos quatro municípios nos picos do verão e do período de férias escolares supera facilmente um milhão de pessoas – veremos que a visão do ''Paraíso Terrestre'' herdada de nossos antepassados ainda continua fortemente impregnada na mente das pessoas. Dentre os quatro municípios, o de Caraguatatuba apresenta características marcantes que tornam ainda mais interessante a sua análise sobre a perspectiva proposta, como se discutirá mais adiante.
O Litoral Norte do Estado de São Paulo (Figura 2) faz parte da estrutura geológica e topográfica da Serra do Mar (CRUZ, 1974), abrangendo a zona costeira e as escarpas a ela associadas, onde predomina um mosaico de ecossistemas conhecido como Floresta Atlântica ou Mata Atlântica, que era uma das maiores áreas de floresta tropical das Américas e aproximadamente 1,5 milhões km² do território brasileiro, inclusive a maior parte do litoral do país (RIBEIRO et al., 2009).
Em função de sua privilegiada localização geográfica, a região foi uma das primeiras a ser ocupada no Período Colonial e, desde o início da colonização, sua história e economia se mesclam com a dominação e a exploração intensiva da Mata Atlântica. Atualmente, no território originalmente ocupado pelo bioma, vive aproximadamente 70% da população brasileira, o que faz com que seja responsável por cerca de 80% do Produto Interno Bruto – PIB (valor total da produção industrial e de serviços de um país) do Brasil (Seixas et al., 2011).
O Litoral Norte do estado de São Paulo abriga uma população de 281.778 habitantes (IBGE, 2011), distribuídos em seus quatro municípios – Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba e compreende uma área total de 1.947,70 km². A cobertura vegetal original ainda persiste em 84% da área dos municípios de Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba (SOS Mata Atlântica; INPE, 2009), enquanto que em Caraguatatuba, com maior população entre eles, esta porcentagem cai para 74%.
O Litoral Norte tem sua ocupação histórica e seu desenvolvimento econômico fortemente entrelaçado com o Vale do Paraíba Paulista, região que, apesar de sua estratégica localização espacial – entre São Paulo e Rio de Janeiro, as duas maiores metrópoles brasileiras – se caracterizou, especialmente durante o período compreendido pela primeira metade do século XX, por um significativo isolamento e pela acentuada estagnação econômica (MOREIRA NETO e FREIRE DE MELLO, 2010a; MOREIRA NETO e FREIRE DE MELLO, 2010b; SILVA et al., 2010).
O seu processo de ocupação e povoamento iniciou-se ainda no período colonial quando, no final do século XVII, exploradores paulistas passaram a se deslocar em direção às Minas Gerais com o objetivo de capturar índios e explorar as reservas de ouro. Neste momento, o vale do Rio Paraíba do Sul assumiu a função de corredor de acesso às regiões localizadas mais ao interior do país, facilitando a entrada dos colonizadores e a ocupação do território. Ao longo dos séculos seguintes, a região manteve este caráter de caminho dos fluxos de pessoas e produtos entre o interior e o litoral (MOREIRA NETO e FREIRE DE MELLO, 2010a; MOREIRA NETO e FREIRE DE MELLO, 2010b; SILVA et al., 2010).
Na segunda metade do século XVIII, a cultura do café expandiu-se pela região, originando-se, por volta de 1760, a partir de cultivos localizados na porção do Vale do Paraíba fluminense. Nas décadas seguintes, a agroindústria cafeeira tornou-se o principal produto de exportação brasileiro e a região viveu um período de significativo dinamismo e crescimento, tanto populacional quanto econômico, financiados pelos grandes lucros gerados pela produção agrícola atingindo seu apogeu durante o Segundo Império brasileiro, propiciando o início do processo de industrialização da região (MOREIRA NETO e FREIRE DE MELLO, 2010a; MOREIRA NETO e FREIRE DE MELLO, 2010b; SILVA et al., 2010).
Na década de 1970, ocorreu a consolidação do processo de desconcentração espacial das atividades industriais do estado de São Paulo, anteriormente concentradas na Região Metropolitana de São Paulo. Este processo foi uma continuação da desconcentração da produção agrícola a partir de São Paulo, iniciado na década de 1940 e que teve seu auge no final da década de 1950 (MARTINE e CAMPOLINA, 1992: 125 apud FREIRE DE MELLO, 2012).
Como afirmam Martine e Campolina, a desconcentração da atividade industrial, ao contrário do que normalmente se pensa, foi pensada e implementada refletindo:
a lógica e o interesse das firmas do estado, de vez que foi induzido, em grande parte pelas necessidades de expansão das empresas paulistas sobre uma parcela crescente do espaço nacional. [...] O lançamento do novo pacote de projetos industriais – a partir do final da década de 60, à medida que as plantas existentes alcançavam suas escalas técnicas ou atingiam plena capacidade – também favoreceu o deslocamento espacial (MARTINE e CAMPOLINA, 1992: 127 apud FREIRE DE MELLO, 2012).
Contemporaneamente e como decorrência das políticas de desenvolvimento das últimas administrações do Governo Federal, a economia da região do Vale do Paraíba Paulista entrou em uma nova etapa de dinamização e crescimento, especialmente em função da implementação das atividades relacionadas com a extração e exploração das reservas de gás natural do campo de Mexilhão e do petróleo da plataforma pré-sal, e da ampliação do Porto de São Sebastião (MoMOREIRA NETO e FREIRE DE MELLO, 2010a; MOREIRA NETO e FREIRE DE MELLO, 2010b; FREIRE DE MELLO, 2012).
Esta nova e dinâmica etapa, além de incorporar e aumentar significativamente a importância econômica e política dos municípios do Litoral Norte, também vem contribuindo de forma bastante importante para o estabelecimento de um novo vetor de atração de atividades econômicas, localizado no sentido Litoral Norte-Campinas e ao longo do eixo das rodovias Dom Pedro I (SP-65) e dos Tamoios (SP-99), que começa a rivalizar com o eixo da Via Dutra (BREUNIG e FREIRE DE MELLO, 2010; CASTRO, FREIRE DE MELLO e REIS, 2010; FREIRE DE MELLO, 2012; MOREIRA NETO e FREIRE DE MELLO, 2010a; MOREIRA NETO e FREIRE DE MELLO, 2010b).
O novo eixo de desenvolvimento vem acompanhado de uma série de projetos de grande impacto econômico, social, ambiental e político, além de contribuir de forma bastante significativa para o aumento da pressão antrópica sobre o meio ambiente em função da ampliação da ocupação urbana de áreas de acentuada vulnerabilidade socioambiental situadas em seu entorno, tanto no interior quanto no litoral (ALVES et al., 2010; BREUNIG e FREIRE DE MELLO, 2010; CASTRO, FREIRE DE MELLO e REIS, 2010; D'ANTONA, ALVES e MELLO, 2010; IWAMA-MELLO, TOMÁS e D’ANTONA, 2011; FREIRE DE MELLO et al., 2010; FREIRE DE MELLO, 2012; MOREIRA NETO e FREIRE DE MELLO, 2010a; MOREIRA NETO e FREIRE DE MELLO, 2010b; SEIXAS et. al., 2010).
Mais que isso, o novo eixo de desenvolvimento representado pelas rodovias Dom Pedro I e dos Tamoios permite que diversos atores sociais expandam as suas participações, ampliando sua influência e a intensidade de seus impactos sobre a realidade socioeconômica e política na região. Talvez um dos melhores exemplos destas participações seja o processo, iniciado alguns anos atrás e que atingiu seu ápice em nove de janeiro de 2012, com a criação da chamada Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte por meio da aprovação da Lei Complementar Estadual 1.166 pelo Governador do Estado de São Paulo.
Dentre estes atores, destaca-se o papel desempenhado pela indústria imobiliária na transformação do espaço e, consequentemente, na geração e intensificação de impactos socioambientais.
O Litoral Norte, por sua vez, teve sua ocupação iniciada já na primeira metade do século XV, culminando em um processo de resistência indígena organizada na Confederação dos Tamoios (1554-1567), que reuniu os chefes nativos da região do litoral Norte Paulista e sul fluminense contra o invasor europeu (Marcílio, 2006, p.47). O acordo oficial de paz, o primeiro do Brasil, conhecido como Tratado de Paz de Iperoig, firmado em 14 de setembro de 1563 com os líderes indígenas possibilitou a radicalização de inúmeros portugueses na região, por meio da obtenção das sesmarias. A ocupação dessa região era ''típica do colono que não tinha capital para comprar escravos, construir engenhos e participar da economia comercial: em outras palavras, do colono que estava limitado à economia de subsistência'' (COSTA, 1984, p. 144).
A descoberta de ouro nas Minas Gerais deu certo ânimo à região, que ensaiou o início da produção de cana-de-açúcar e gêneros de primeira necessidade para o abastecimento das áreas mineradoras, transportadas pelo porto de Ubatuba. Em 1789, o governador da capitania de São Paulo determina que toda e qualquer exportação só poderia ser realizada pelo Porto de Santos, o que provocou uma grande decadência na região. Esse contexto de crise só foi resolvido após 1808 com a chegada da família real e com a abertura dos portos. No entanto, as sucessivas crises econômicas do Brasil – em parte decorrentes da crise do café – levaram a um grave marasmo econômico na região.
Todavia, com a construção da rodovia dos Tamoios (SP-099) na década de 1950, conectando a região costeira com o planalto, os municípios passaram a experimentar uma nova etapa de dinamismo e desenvolvimento ao se tornarem destinos turísticos muito populares, especialmente para a classe média paulistana e do interior do Estado.
O crescimento demográfico observado ao longo das décadas seguintes foi significativamente impulsionado pela indústria imobiliária e pela atividade turística predatória e desordenada, o que acarretou mudanças ambientais marcantes e geradoras de grande impacto socioambiental na região.
Hoje, uma nova etapa do desenvolvimento econômico se instala no local, relacionada principalmente com a exploração das reservas de petróleo e gás natural conhecidas como Pré-Sal, que poderá aumentar significativamente o risco de acidentes e enchentes, em função de uma mudança expressiva no cenário atual, com aumento populacional, carros de passeio e de transporte de cargas. Ao mesmo tempo em que se constata a precariedade da rede de serviços de saúde incluindo os serviços de emergência hospitalar, que não estão preparados para atender a demanda resultante da expansão urbana que já se encontra em curso (HOGAN et al., 2008).
O município de Caraguatatuba, localizado a 186 km da capital paulista possui 29 km de orla formada por 17 praias bastante procuradas para atividades de lazer e turismo, é talvez o mais impactado dos municípios da região em função da etapa contemporânea de desenvolvimento relacionado com a exploração das reservas do Pré-Sal. Sua densidade demográfica já é de 183,52 hab./km², mas tende a observar um aumento significativo neste número em função das novas atividades econômicas (HOGAN et al., 2008; BARBOSA, 2007; RENK, 2010; FREIRE DE MELLO, 2012).
Para evidenciar a vulnerabilidade da região vale destacar que, em março de 1967, ocorreu um importante evento climático que ficou conhecido como ''A Catástrofe'', resultante de uma sequência de deslizamentos na Serra do Mar, decorrentes, por sua vez, de uma anomalia positiva de precipitação na região no período e que provocou, segundo registros da época, a morte de 436 pessoas, além de severos danos à infraestrutura e à economia locais. Da população local residente no município na época, 33 % perdeu suas casas em função dos deslizamentos. Na área que hoje abriga o Parque Estadual da Serra do Mar, ocorreram inúmeros desabamentos provocando um lençol de lama que, em apenas dez minutos cobriu a cidade (CRUZ, 1979; CASTRO et al., 2012).

Considerações Finais
De uns anos pra cá, os brasileiros têm assistido constantemente a uma série de desastres naturais, cataclismos associados, normalmente, às intensas chuvas que provocam o deslizamento do solo, o soterramento de pessoas e propriedades, assim como a destruição da infraestrutura e a interrupção das atividades econômicas.
No entanto, pode-se afirmar que as regiões ameaçadas possuem uma dinâmica natural própria e bastante característica que compõe um quadro de elevada vulnerabilidade ambiental e expõe a população a um complexo quadro de riscos socioambientais, que tende a se agravar. A área do Parque Estadual da Serra do Mar, por exemplo, tem sido um centro de uma série de investimentos em infraestrutura relacionada à exploração dos recursos de petróleo e gás natural da chamada camada do Pré-Sal, como o Projeto Mexilhão da Petrobras, e infraestrutura urbana como Anel Viário Caraguatatuba – São Sebastião, o Aterro Sanitário Regional e o Centro de Detenção Provisória, todos localizados na fronteira entre os municípios de Caraguatatuba e São Sebastião (HOGAN et al., 2008; RENK, 2010; SEIXAS; RENK, 2010).
Toda a forma como a mídia e a própria sociedade brasileira vêm entendendo e representando o Pré-Sal remete ao antigo mito do Éden materializado em terras brasileiras que acompanha a história do País desde seu início. Todavia, a realidade tem mostrado ser bem mais dura do que a fantasiada no passado e inserida na cultura nacional. O mito da natureza edênica, da flora, fauna, rios e florestas, deu vazão às frustrações de nossos sonhos, destruídos pela ação predadora dos colonizadores, ajudados pelos próprios brasileiros.
Imaginamos que uma crítica e um sistemático e decorrente desmanche deste mito pode ajudar a sociedade brasileira a superar este entrave psicológico e cultural que enviesa sua percepção e, consequentemente, sua relação com o ambiente. Uma nova lógica orientada e melhor sintonizada com a realidade contemporânea, leva em conta todas as questões relacionadas com as vulnerabilidades socioambientais a que a população e as instituições se encontram, principalmente em função das intensas e significativas mudanças ambientais globais. É com este processo que o presente trabalho pretende contribuir.

Referências Bibliográficas
ALVES, H. P. F., MELLO, A. Y. I., D'ANTONA, A. O. e CARMO, R. L. (2010). Vulnerabilidade socioambiental nos municípios do litoral paulista no contexto das mudanças climáticas. In: Associação Brasileira de Estudos Populacionais, 2010, Caxambu – MG. XVII Encontro Nacional de Estudos Populacionais. Caxambu.         [ Links ]
ARRUDA, F. G.; PAPALI, M. A. C. R.; FREIRE DE MELLO, L. (2011). Crescimento populacional no século XX: Estudo de caso dos municípios de Caçapava, Jacareí, São José dos Campos e Taubaté. In: XI Encontro Latinoamericano de Pós-Graduação, 2011, São José dos Campos. Anais do XI Encontro Latinoamericano de Pós-Graduação.         [ Links ]
ASSUNÇÃO, P. (2001). A terra dos Brasis: a natureza da América portuguesa vista pelos primeiros jesuítas (1549-1596). São Paulo: Annablume.         [ Links ]
BARBOSA, S. R. C. S.; FORMAGIO, C. C.; BARBOSA, R. V. (2009). Unidades de Conservação, Transformações Socioambientais, Uso e Ocupação do Espaço no Litoral Norte Paulista: um registro visual. CLIMEP – Climatologia e Estudos da Paisagem [ISSN 1980-654X], Rio Claro, v (4), n(1), p. 15, jan/ jun.         [ Links ]
BARBOSA, S. R. C. S.; FORMAGIO, C. C.; BARBOSA, R. V. (2010). Áreas Protegidas, Uso e Ocupação do Solo, Qualidade de Vida e Turismo no Litoral Norte Paulista: Algumas Reflexões sobre o Município de Ubatuba. Caderno Virtual de Turismo (ISSN: 1677-6976), COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, v(10), n(2), p. 121-137, ago.         [ Links ]
BARTHES, R. Mitologias. São Paulo: Difel, 1985.         [ Links ]
BREUNIG, F. M. e FREIRE DE MELLO, L. Evolução da mancha urbana ao longo da Rodovia dos Tamoios (São José dos Campos-Caraguatatuba) no período de 2000-2008: uma primeira abordagem. In: XVII Encontro Nacional de Estudos Populacionais, 2010, Caxambu. Anais do XVII Encontro Nacional de Estudos Populacionais, 2010.         [ Links ]
CARVALHO, José Murilo de. O Brasil e seus nomes, 2007. http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/o-brasil-e-seus-nomes        [ Links ]
CASTRO, L. M. F. B., FREIRE DE MELLO, L. e REIS, J. B. C. Novos Usos e Processos na rodovia dos Tamoios - SP-099. In: II Encontro Regional de Geografia de Taubaté - II ERGTAU, 2010, São Luis do Paraitinga, SP. Anais do II Encontro Regional de Geografia de Taubaté - II ERGTAU. Taubaté: Unitau, 2010.         [ Links ]
CASTRO, L. M. F. B.; FREIRE DE MELLO, L. Desenvolvimento Regional do Vale do Paraíba Paulista Algumas Considerações. In: XI Encontro Latinoamericano de Pós-Graduação, 2011, São José dos Campos. Anais do XI Encontro Latinoamericano de Pós-Graduação. São José dos Campos : Universidade do Vale do Paraíba, 2011.         [ Links ]
CHAUÍ, M. Brasil: O Mito Fundador. São Paulo: Perseu Abramo, 2000.         [ Links ]
CONFALONIERI, U. E. C. (org.) (2005). Análise da Vulnerabilidade da população brasileira aos impactos sanitários das mudanças climáticas. Relatório Final de projeto de pesquisa. MCT, Rio de Janeiro.         [ Links ]
COSTA, E. V. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Brasiliense, 1984.         [ Links ]
CRUZ, O. (1974). A Serra do Mar e o litoral na região de Caraguatatuba. Tese (doutorado). Instituto de Geografia, Universidade de São Paulo – USP, São Paulo.         [ Links ]
D'ANTONA, A. O., ALVES, H. P. F. e MELLO, A. Y. I. Risco e vulnerabilidade socioambiental nas cidades do litoral do estado de São Paulo, Brasil, no contexto das mudanças climáticas. In: Asociación Latinoamericana de Población (ALAP), 2010, La Habana – Cuba. IV Congreso ALAP. La Habana – Cuba, 2010.         [ Links ]
FERREIRA, L. C.; ANDRADE, T. H. N.; MARTINS, R. D.; BARBI, F.; FREIRE DE MELLO, L.; URBINATTI, A. M.; SOUZA, F. O.; FERREIRA, L. C. Governing Climate Change in Brazilian Coastal Cities: Risks and Strategies. Journal of US-China Public Administration, v. 8, p. 51-65, 2011.         [ Links ]
FREIRE DE MELLO, L. Trabalhadores do Conhecimento e Qualidade do Lugar em Campinas, SP. Tese de Doutorado. Campinas: Universidade Estadual de Campinas. 2007.         [ Links ]
FREIRE DE MELLO, L.; HOGAN, D. J. População, Consumo e Meio Ambiente. In: HOGAN, D. J. (Org.). Dinâmica populacional e mudança ambiental: cenários para o desenvolvimento brasileiro. Campinas: Núcleo de Estudos de População – NEPO/Unicamp, 2007, p. 59-72.         [ Links ]
FREIRE DE MELLO, L. População, Consumo e Mudança Climática. In: HOGAN, D. J.; MARANDOLA JR., E. (Org.).População e mudança climática: dimensões humanas das mudanças ambientais globais. Campinas: Núcleo de Estudos de População – NEPO/Unicamp, 2009, p. 109-135.         [ Links ]
FREIRE DE MELLO, L. Amenidades e riscos na metrópole contemporânea. Caderno de Geografia (PUCMG. Impresso), v. 20, p. 1-15, 2010.         [ Links ]
FREIRE DE MELLO, L. Demografia da Migração. In: ZANETTI, V. e GUIMARÃES, A. C. (Orgs.). São José dos Campos: Representação, cotidiano e gênero. São José dos Campos: Univap, 2012 (no prelo).         [ Links ]
HOGAN, D. J.; TOLMASQUIM, M. T. (orgs.) (2001). Human dimensions of global environmental changes: Brazilian perspectives. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Ciências.         [ Links ]
HOGAN, D. J. (coord.) (2008). Urban growth, vulnerability and adaptation: social and ecological dimensions of climate change on the coast of São Paulo. Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Globais – PFPMCG (processo n. 2008/58159-7).         [ Links ]
HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969.         [ Links ]
IWAMA-MELLO, A. Y., TOMÁS, L. R. e D'ANTONA, A. O. Análise de vulnerabilidades às mudanças climáticas: proposta de abordagens por setores censitários e áreas de ponderação em Caraguatatuba e Santos - São Paulo. In: Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto, 2011, Curitiba-PR. XV SBSR, 2011.         [ Links ]
LEITE, S. Artes e Ofícios dos Jesuítas no Brasil (1549-1760)Lisboa: Edições Brotéria, 1953. Disponível na Biblioteca do IFCH – UNICAMP.         [ Links ]
_________. Cartas dos primeiros jesuítas do Brasil (1558-1563)São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1954.         [ Links ]
MARCELINO, Emerson Vieira. Desastres naturais e geotecnologias: conceitos básicos. Ministério da Ciência e da Tecnologia. Emergency Events Database período de 1900-2006. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Santa Maria, 2007.         [ Links ]
MARCÍLIO, M. L. Caiçara: terra e população. São Paulo: EDUSP, 2006.         [ Links ]
MELLO, A. Y. I., D'ANTONA, A. O., ALVES, H. P. F. e CARMO, R. L. Análise da Vulnerabilidade Socioambiental nas Áreas Urbanas do Litoral Norte de São Paulo. In: Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade – ANPPAS, 2010, Florianópolis - SC. V ENANPPAS. Florianópolis-SC, 2010.         [ Links ]
MOREIRA NETO, P. R. e FREIRE DE MELLO, L. Desenvolvimento econômico, população e impactos ambientais: mudanças contemporâneas no extremo leste paulista. 2010.         [ Links ]
MOREIRA NETO, P. N. e FREIRE DE MELLO, L. Dinâmica Regional e Industrialização: Diversificação e Concentração Espacial no Vale do Paraíba. In: COSTA, S. M. F. e MELLO, L. F. (Orgs.). Crescimento Urbano e Industrialização em São José dos Campos. São José dos Campos: Univap, 2010.         [ Links ]
NEVES, C. M. A Vila de São Paulo de Piratininga: fundação e representação. São Paulo: Annablume: Fapesp, 2007.         [ Links ]
NEVES, M. de S. Os cenários da República. O Brasil na virada do século XIX para o século XX. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (org.). O Brasil Republicano. São Paulo: Civilização Brasileira, 2006.         [ Links ]
PETRUCELLI, J. L. Café, escravidão e meio ambiente. O declínio de Vassouras na virada dos séculos XIX. Estudos Sociedade e Agricultura. 3 nov. 1994:79-91.         [ Links ]
RIBEIRO, M.C.; METZGER, J. P.; MARTENSEN, A. C.; PONZONI, F. J.; HIROTA, M. M. (2009). The Brazilian Atlantic Forest: how much is left, and how is the remaining forest distributed? Implications for conservation. Biological Conservation, v. (142), p. 1141–1153.         [ Links ]
SEIXAS, S. R. C., BARBOSA, R. V., RENK, M., ASMUS, G. F. e IWAMA-MELLO, A. Y. Mudanças ambientais globais e saúde: uma abordagem preliminar sobre o município de Caraguatatuba, Litoral Norte Paulista. Teoria & Pesquisa, v. 19(2), p. 29-59, 2010.         [ Links ]
SEIXAS, S. R. C.; HOEFFEL, J. L.; RENK. M.; VIEIRA, S. A.; FREIRE DE MELLO, L.; VIANNA, P. V. C. Mudanças ambientais globais, vulnerabilidade e risco: impactos na subjetividade em Caraguatatuba, Litoral Norte Paulista.         [ Links ]
SILVA, S. G., VIEIRA, S., ZANETTI, V., MARTINS, N. R. e RIBEIRO, D. A Fundação da Cidade de São José dos Campos. In: PAPALI, M. A. (Org.). São José dos Campos: de Aldeia a Cidade. São José dos Campos: Univap, 2010.         [ Links ]
STEIN, SVassouras: um município brasileiro do café, 1850-1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.         [ Links ]

Postagem em destaque

Introdução à Gestão da Cadeia de Suprimentos

  O QUE É A CADEIA DE SUPRIMENTOS  ? Na atualidade, a feroz competição nos mercados globais, o aparecimento de produtos com ciclos de vid...