24/08/2015

Política monetária em tempos de crise

ises financeiras, como a ocorrida em 2008, são acompanhadas por fortes quedas da produtividade total dos fatores (PTF) nos países emergentes. Tal efeito é amplamente documentado para todas as economias emergentes por Calvo et alii (2006) e Cerra (2008), para as crises nas décadas de 80 e 90, e por Queralto (2012) para a crise de 2008. Neste artigo, mostramos evidências de que a crise de 2008 levou a uma queda da PTF no Brasil e apresentamos um modelo onde os efeitos reais da crise resultam de choques externos que implicam em mudanças nos preços relativos dos fatores de produção, e assim na PTF. Tal modelo é estimado para a economia brasileira, e as implicações para a condução de política monetária são discutidas.
Nós analisamos dois tipos de choques externos sob os quais a economia brasileira se deparou recentemente, e suas conseqüências sobre a economia: choques de sudden-stops e choques nos termos de troca. Dessa forma, o foco do artigo será avaliar a condução de políticas monetárias em períodos de crises provocadas por estes dois tipos de choques.
Em uma economia com fricções no sistema financeiro é de se esperar certo grau de ineficiência alocativa. Uma queda de produtividade acentuada durante uma crise financeira revela que a crise pode causar um aumento desta ineficiência. Assim exploramos como um sudden-stop implica em um aumento da ineficiência alocativa causada por fricções financeiras. Ao mesmo tempo, quando uma economia precisa importar insumos, um choque nos termos de troca resulta em uma mudança dos preços relativos da economia, implicando em outra fonte de ineficiência alocativa.
O modelo é desenvolvido a partir de uma mescla de insights fornecidos por modelos de working capital com cash-in-advance (e.g. Carlstrom e Fuerst, 1995), de fricções financeiras em economias abertas e pequenas (e.g. Neumeyer e Perri, 2005, Pratap e Urrutia, 2012), e modelos com importação de insumos, de forma que os termos de troca são relevantes na alocação de recursos produtivos (e.g. Mendoza, 1995, Acemoglu e Ventura, 2002).
Dessa forma, o modelo consiste em uma economia em que o lado real segue um modelo padrão de Real Business Cycles (RBC). A moeda é inserida no modelo a partir de uma restrição cash-in-advance na decisão de consumo das famílias, e em uma restrição de working capital na decisão de contratação de trabalhadores pelas firmas. Tais restrições implicam em duas ineficiências sobre a economia:
1) a restrição de moeda pelas firmas faz com que os juros cobrados pelo intermediário financeiro afete o custo do trabalho, e, assim, a sua demanda (Fuerst, 1994);
2) a restrição de moeda das famílias implica em uma distorção na decisão de consumo (Cooley e Hansen, 1989).
Nós adicionamos ao modelo o setor externo de duas formas. Primeiramente, como um agente que empresta recursos para o intermediário financeiro, sendo uma fonte de liquidez, o que reduz a primeira fonte de distorção listada no parágrafo anterior; e em segundo lugar, como produzindo bens intermediários que são importados pelas firmas para serem utilizados na produção. Como resultado, os termos de troca afetam os preços relativos dos fatores, e assim, a eficiência alocativa da economia, de forma que choques nos termos de troca terão um efeito similar a um choque de produtividade.
O modelo é estimado para a economia brasileira para o período 2000-2012. A partir dos parâmetros estimados e calibrados, o modelo foi capaz de construir uma série de hiato da PTF que segue as mesmas direções da série observada nos dados, explicando boa parte do seu comportamento no período. Além disso, os resultados indicam que a regra de política monetária que maximiza o bem estar depende da fonte dos choques, uma vez que cada choque implica em distorções diferentes sobre o modelo.

2. CRISE DE 2008 NO BRASIL: FATOS ESTILIZADOS
A economia brasileira apresentou mudança na sua trajetória após a crise financeira de 2008. Nesta seção, a mudança na trajetória é documentada. A Figura 1 apresenta a série de PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil trimestralmente entre 2006 e 2012. O produto brasileiro apresentava uma trajetória de crescimento até o final de 2008, quando a crise financeira levou à diminuição do PIB. Depois o PIB retoma a trajetória de crescimento mas, a partir da segunda metade de 2010 assume uma trajetória de estagnação. Tal comportamento é bem evidente ao observarmos as séries da indústria na Figura 2.




O ponto que chama mais a atenção nestas figuras é que fica bem visível que a produção sofreu uma queda repentina com a crise de 2008, e, longe de retornar à mesma trajetória de crescimento, começou a divergir da trajetória anterior, mesmo após quatro anos pós-crise. Tal comportamento fornece evidências de que a crise foi capaz de alterar a trajetória de crescimento do país.1
Como verificamos a crise teve como resultado uma mudança significativa e persistente na produção industrial brasileira. Na literatura de crescimento há explicações que tentam vincular a mudança de trajetórias de longo prazo em face à crises por fricções financeiras em países em desenvolvimento, como em Queralto (2012), onde se incorpora o ambiente de fricções financeiras à la Bernanke-Gertler em um modelo de crescimento endógeno. No presente artigo iremos nos focar às consequências de curto prazo de crises como choques de liquidez.
Porém, outro aspecto da crise chama a atenção. O comportamento de queda do PIB em 2008 está atrelado a uma queda persistente da Produtividade Total dos Fatores (PTF) da economia. Vale à pena destacar que as taxas de desemprego, após 4 anos da crise, são hoje menores que antes da crise e que a utilização da capacidade instalada também é maior hoje. Isso fornece pistas de que ocorreu uma queda da produtividade que se manteve no período. A Figura 3 apresenta a trajetória da PTF no Brasil de 2004 a 2011. Há uma tendência de crescimento da PTF, interrompida com a crise financeira de 2008 e que não chega a retomar o crescimento prévio.


Diante disso, apresentaremos na próxima seção um modelo teórico que fornece as explicações para a relação entre choques externos (como sudden-stops e deterioração nos termos de troca) e as variações na PTF e no produto. Tal modelo será estimado para a economia brasileira para verificar possíveis prescrições de política econômica.

3. MODELO
Nesta seção apresentamos o modelo padrão que utilizaremos para avaliar a política monetária em períodos de crise.2 O modelo é uma economia pequena, que importa insumos para a produção e que toma emprestado recursos externos (i.e., recebe um fluxo de capital, que aumenta a liquidez do sistema financeiro). Os termos de troca que as firmas se deparam para importar os insumos e o montante de recursos recebidos seguem um comportamento estocástico. Assim choques nestas variáveis serão as fontes de crises de nossa economia.
O intermediário financeiro recebe recursos do exterior e depósitos das famílias, que repassa às firmas. Ao mesmo tempo a autoridade monetária pode fazer uma injeção de moeda no sistema financeiro por meio de compras ou vendas de títulos públicos em operações de mercado aberto. Como consequência, a taxa de juros cobrada às firmas será diferente da taxa paga às famílias, uma vez que as famílias não podem rever seu portfólio após a intervenção do Banco Central. Assim, o intermediário financeiro tem duas funções:
1) ser o canal de recursos financeiros do exterior e das famílias para as firmas;
2) ser o canal de transmissão da política monetária.
A economia é formada por três tipos de agentes: famílias, firmas e intermediários financeiros. Todos são numerosos de forma a agirem em competição perfeita. Logo, restringimos ao comportamento do agente representativo de cada um deles, e após isso considerar as implicações para equilíbrio geral.
3.1. Famílias
As famílias possuem capital e recebem renda do capital, do trabalho e de juros sobre depósitos no sistema financeiro do período anterior. Assim, no início do período as famílias decidem se usarão seus recursos em consumo, investimento em capital, ou em depósitos no sistema financeiro para receber juros no período seguinte.
As famílias vivem infinitamente, e cada família i busca maximizar a função utilidade esperada dada por
no qual ct é o consumo da família em t, h o trabalho ofertado e D e (0,1) a taxa de desconto temporal. Na equação (2), utiliza-se a utilidade logarítmica com trabalho indivisível, no qual
 uma constante e h0 unidades de trabalho que cada família oferece de trabalho à firma, caso trabalhe.
As famílias estão sujeitas a uma restrição cash-in-advance
 e à restrição orçamentária
no qual Pt é o índice de preços em t e mt a moeda que as famílias podem utilizar para consumo ou para depósitos (Nt) no intermediário financeiro, no qual receberão juros rn.
Assim, as famílias iniciam o período com o salário recebido (w), o retorno do capital (r), o estoque de capital que não depreciou, e o saldo resultante dos depósitos bancários, e deve decidir entre investir e manter moeda, que será utilizada para novos depósitos ou para consumir durante o período.
3.2. Firmas
A firma representativa contrata trabalhadores (H), importa bens intermediários (Xf) e aluga capital (K) sob competição perfeita, maximizando o lucro, e depara-se com uma função de produção dada por
e maximiza lucros sujeito à restrição orçamentária
Assim, a firma tem de pagar salários, mas também tem de pagar os juros rf pelo capital de giro que tiveram de tomar emprestado para pagarem os salários. Esta mudança significa que choques na taxa de juros alteram as decisões de produção e têm um efeito direto no produto. Além disso, ao importarem bens, as firmas pagam um preço pf, que é o inverso dos termos de troca.
A condição de maximização do lucro faz com que as firmas tenham uma demanda por bens intermediários importados . Desse modo, podemos reescrever a função de produção como (6)
no qual . Dessa forma, um aumento nos termos de troca (queda em pf) implica em um aumento da produtividade total dos fatores da economia, A.
3.3. Intermediário financeiro
O intermediário financeiro opera em um mercado competitivo, recebendo os depósitos das famílias, Nt, os empréstimos do exterior, Bt, e as injeções de moeda da autoridade monetária, , e emprestando esses recursos às firmas.
Na literatura, a restrição de tomada de crédito externo pode ocorrer por causa de restrições de colateral, o que implicaria que a restrição seria endógena de acordo com as condições macroeconômicas internas, como em Arellano e Mendoza (2003), ou por causa de parâmetros externos (como variações nas preferências, tecnologia, produto ou fricções financeiras dos países desenvolvidos), como no modelo de equilíbrio global de Caballero e Panageas (2007), sendo determinado exogenamente. Nós assumimos que o fluxo de capitais é limitado por condições externas uma vez que desejamos interpretar a crise de 2008, por exemplo, que claramente foi causada por um choque externo de liquidez. Como consequência, há uma fricção no sistema financeiro que permite que os bancos tomem emprestado do setor externo e das famílias pagando taxas de juros diferentes, pois a restrição sobre o crédito externo limita tal fonte, fazendo com que os bancos tenham de buscar o crédito das famílias a partir de certo ponto apesar de terem de pagar um juro maior.
Assim, assumindo que os bancos agem sob competição perfeita, eles se deparam com a seguinte restrição orçamentária (condição de lucro zero)
ou seja, um aumento da oferta de moeda implica em um efeito de liquidez, diminuindo os juros pagos pelo capital de giro para as firmas.
Assim o valor recebido dos empréstimos das famílias, do setor externo e da autoridade monetária se traduz em pagamento de salários para as firmas de modo que
tal equação é uma condição de equilíbrio para o mercado financeiro.
Dessa forma uma queda em Bt (um sudden-stop) teria um impacto no lado real da economia por reduzir os recursos disponíveis para a contratação de trabalhadores. No modelo, assumiremos que a taxa de juros paga pelos empréstimos externos é uma constante r*, enquanto que o fluxo de capitais é uma variável sujeita a choques estocásticos.
3.4. Política monetária
O Banco Central (BC) escolhe a taxa de expansão monetária com a finalidade de ajustar o valor da taxa de juros de empréstimos às firmas. A partir das condições (7) e (8), o BC pode escolher a taxa de juros r{ e determinar a taxa bruta de expansão monetária gt pela expressão
O crescimento do estoque de moeda é dado por Mt = gtMt-i.
Por sua vez, o BC determina a taxa de juros desejada dos empréstimos às firmas r{ através de uma regra de Taylor, apresentada pela equação (10), que reage aos desvios da economia ao steady-state.
no qual as variáveis com traço são os valores de steady-state, a e b os parâmetros de reação da regra de Taylor,  é a inflação da economia e tt o choque de política monetária. Diferentemente do usual, a taxa de juros a ser determinada pela regra de Taylor é uma taxa de juros real e não nominal porque os empréstimos são tomados no início do período e pagos no fim do período. Essa diferença faz com que o parâmetro , no qual b seria o parâmetro caso a regra de Taylor regulasse a taxa de juros nominal.
3.5. Equilíbrio
O modelo consiste na dinâmica das variáveis Considerando as condições de agregação, as condições de primeira ordem das famílias são:
As restrições agregadas para as famílias são dadas por
Para as firmas, o produto marginal do trabalho iguala-se ao salário real acrescido dos custos de financiamento
e o produto marginal do capital iguala-se à taxa de juros
A função de produção é dada por (6) e as condições de equilíbrio para o intermediário financeiro são (7) e (8).
O modelo é log-linearizado em torno do steady-state, originando as equações de espaço de estado que serão estimadas fornecendo os valores dos parâmetros do modelo. A descrição completa do modelo log-linearizado encontra-se no Apêndice A.

4. ESTIMAÇÃO
Todas as séries utilizadas foram dessazonalizadas e filtradas pela técnica de Hodrick-Prescott (com o parâmetro de suavização para dados trimestrais no valor de 1600). O gap do produto foi obtido a partir da série de PIB (Produto Interno Bruto) oriunda do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A taxa de juros de empréstimo às firmas foi obtida a partir da taxa de juros de capital de giro, fornecido pelo BCB. O indicador de liquidez externa advém do montante líquido da conta financeira ao subtrair o investimento direto estrangeiro líquido, fornecido pelo BCB. A partir de tal montante, um índice de liquidez externa foi construído. A série de termos de troca foi obtida a partir da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (FUNCEX).
4.1. Parâmetros calibrados e distribuição das priors
4.1.1. Parâmetros calibrados
A calibração do modelo estipula que os valores de δΖ e D seguem os trabalhos aplicados ao Brasil de Bonelli e Fonseca (1998), Ferreira e Araújo (1999), Kanczuk (2001, 2002), Ellery et alii (2002), Teles e Andrade (2006) e Souza Sobrinho (2011). O parâmetro de crescimento bruto da moeda transferida para o sistema financeiro nosteady-state  foi estabelecido como a taxa de inflação trimestral 6,5% a.a. trimestralizada entre 2000 e 2012. A taxa de juros internacional r* foi calibrada com base na taxa de juros média dos EUA no período. O fluxo de recursos externos em termos reais  foi estabelecido de modo que se aproximasse de 2,5% do produto desteady-state da economia, uma média observada para o Brasil. Para normalizar,  1. A Tabela 1 apresenta os valores calibrados para os parâmetros.


4.1.2. Priors
Os valores médios das priors seguem cálculos para a economia brasileira e valores padrões sugeridos pela literatura. O parâmetro de participação dos insumos importados α foi utilizado como 0,07 que é a média da razão das importações de bens de capital e de bens intermediários em relação ao PIB para o Brasil entre 2000 e 2012. Tal número não se distancia do valor de 0,10 para α obtido por Mendoza (2010). Os parâmetros ρλ e σλforam obtidos de acordo com os trabalhos citados anteriormente, assim como a participação do capital , o que permitiu obter o parâmetro θ.3 Os parâmetros para a regra de Taylor de reação ao produto (a) e à inflação (b) foram assumidos, respectivamente, como 0,5 e 1,5, uma vez que tem sido um resultado padrão em estimações realizadas que a reação do Banco Central que a reação à inflação é muito maior que a reação ao hiato do produto no Brasil.
Por sua vez, os parâmetros para o processo estocástico de rf , ψ e η são obtidos através de uma regressão de mínimos quadrados ordinários sobre o gap dessas variáveis. Baseado na série do capital de giro, obtivemos pt =0,75 e desvio-padrão do resíduo da regressão forneceu σt= 0,01. A partir da série do inverso dos termos de troca obteve-se o coeficiente do inverso dos termos de troca defasado pp = 0,83 e o resíduo da regressão estabeleceu que σρ= 0,01. Por fim, o índice de liquidez externa levou às estimativas do coeficiente do choque defasado de liquidez externa pe = 0,88 e σβ = 1,50.
As séries utilizadas para a estimação bayesiana são os gaps da liquidez externa , do produto , do inverso dos termos de troca  e dos juros de capital de giro .
4.2. Posteriors estimados
A solução do modelo é representada em espaço de estado, que é utilizado para computar a função verossimilhança. Usamos uma abordagem bayesiana e escolhemos as distribuições das priors para os parâmetros da função de verossimilhança. A estimação das distribuições das posteriors dos parâmetros é realizada utilizando-se o algoritmo de Metropolis-Hastings.
Utilizamos 4 choques e por isso utilizamos 4 variáveis observadas para fazer a estimação. A amostra vai do primeiro trimestre de 2000 ao último trimestre de 2012. Os resultados das posteriors estimados são apresentados na Tabela 2. As distribuições estimadas das posteriors são apresentadas no Apêndice B.


5. PROPRIEDADES DO MODELO
Nesta seção, apresentamos a dinâmica do modelo linearizado usando respostas a impulso, com foco nos choques externos. Na Figura 4, nós observamos as respostas a impulso estimadas para um choque no fluxo de capitais. Neste caso, há uma expansão na entrada de fluxo de capitais no país que causa uma expansão da liquidez da economia que se traduz na redução dos juros para capital de giro . Tal expansão de liquidez externa implica em um aumento na contratação de trabalhadores (h), uma vez que tal recurso fica barateado, e em um aumento da PTF, uma vez que alivia a fricção financeira, tendo como resultado um aumento do retorno marginal do capital (r). Dessa forma, a economia experimenta um aumento do produto (y) e do consumo (c). Um choque negativo de liquidez externa teria um efeito simétrico, ou seja, uma crise de liquidez externa implicaria em um aumento dos juros de capital de giro, seguido de uma queda da produção e da contratação de trabalhadores. Tais movimentos foram verificados por ocasião da crise de 2008 no país.


Na Figura 5, avaliamos as respostas a um impulso negativo nos termos de troca (i.e. um choque positivo em pf).Tal choque implica em um aumento do custo de produção, uma vez que o bem intermediário importado fica mais caro, e reduz a PTF, ao causar ineficiência alocativa. Como consequência, há uma redução do produto marginal do capital e do trabalho, reduzindo-se r e h,e por consequência, a produção y.


Figura 6 apresenta as respostas a um impulso monetário expansionista, diminuindo de imediato os juros de capital de giro, seguido de um aumento em face da regra de reação do Banco Central. A expansão monetária não é neutra uma vez que há fricções financeiras que fazem com que o custo do trabalho dependa da política monetária. Assim, a diminuição dos juros tem uma implicação no aumento de contratação de trabalhadores o que implica em um aumento do produto e do retorno marginal do capital.


6. APLICAÇÕES
Uma forma de avaliar a importância dos choques externos sobre as flutuações do produto na economia é verificar a decomposição dos choques no produto, disposta na Figura 7.


Nós observamos na decomposição dos choques, que as variações de fluxo de capitais não representam um componente relevante para explicar as flutuações do produto na maior parte do período analisado, mas que a crise de 2008 pode ser explicada de forma preponderante pela queda de liquidez externa, deixando claro que choques abruptos nessa variável têm um impacto relevante na economia.
Por outro lado, as variações nos termos de troca representam uma parcela significativa da explicação das variações do produto, sobretudo no período pós-crise, de forma que nossos resultados corroboram com outros apresentados na literatura, como em Cardoso e Teles (2010). Nesse sentido, fica claro aqui que a correlação entre termos de troca e flutuações do produto podem ser explicadas por um canal de variações na produtividade da economia.
Já os choques inesperados de política monetária se destacam no período entre 2005 e 2007 quando houve uma política monetária mais conservadora, refletindo-se de forma significativa em uma redução do produto. Ao mesmo tempo, os resultados para o período pós-crise refletem a falta de capacidade da política monetária expansionista adotada nesse período de ter um impacto positivo no produto de forma relevante.
Uma forma de avaliarmos a capacidade do modelo de explicar os movimentos da economia brasileira, e especialmente as variações de curto prazo da PTF, é compararmos os valores previstos para a série da PTF pelo modelo com os valores calculados a partir do resíduo de Solow sem tendência. Tal comparação é realizada a partir na Figura 8. A figura mostra que a série prevista segue a mesma direção da observada, embora com menos flutuações. A correlação das duas séries é de 0,79. Assim, podemos dizer que o modelo é capaz de produzir um ajuste bastante próximo do observado.

7. IMPLICAÇÕES PARA POLÍTICA MONETÁRIA
Para analisar as implicações de política monetária, realizamos um exercício de verificar como diferentes regras de política monetária impactam o bem estar com base nos parâmetros estruturais estimados. Os resultados deste exercício encontram-se na Tabela 3. A coluna da regra 1 apresenta os resultados obtidos ao se utilizar à regra de reação estimada para o período, onde a reação a inflação mostrou-se bem maior que a de variações no hiato do produto. As linhas mostram como a economia reagiria sob circunstâncias diferentes, a saber, diante de todos os choques incluídos no modelo, ou diante de cada choque específico.


As colunas das regras de 2 a 5 mostram qual seria o resultado de alterar os parâmetros da regra de Taylor, aumentando ou diminuindo o rigor com relação à inflação e/ou ao hiato do produto. Tais resultados ajudam a interpretar o modelo, pois fornecem como as distorções incorporadas são magnificadas por diferentes choques e como as reações do Banco Central podem ser úteis para controlá-las.
Nesse respeito, as regras de Taylor são preferíveis para aumentar o bem-estar em relação a regras de crescimento constante do agregado monetário, pois estabilizam o juro nominal, que é a fonte de distorção do bem estar em última instância (ver Carlstrom e Fuerst, 1995). No nosso caso, os choques de liquidez externa têm um impacto distorcivo no montante de liquidez do sistema financeiro, e assim sendo uma espécie de choque nominal com efeitos reais. Diante disso, as regras de reação com maior peso à inflação são as que têm melhor desempenho para aumentar o bem estar. Por outro lado, quando a origem do choque é nos termos de troca, a regra que implica em um valor mais alto do bem estar é a que reage mais fortemente a variações no hiato do produto.

8. CONCLUSÕES
Neste trabalho, verificamos como crises causadas por choques externos, como sudden-stops e depreciação dos termos de trocas, afetariam a economia brasileira no período 2000-2012. Para tanto o presente artigo propõe um modelo simples, de cash-in-advance e working capital, no qual choques externos são capazes de afetar a decisão de alocação de fatores de produção, e assim a produtividade total dos fatores da economia.
O modelo é estimado, de forma que a importância dos choques externos pode ser avaliada para o período. O ajuste do modelo é ilustrado por produzir uma série de variações na PTF similar à observada, apesar de não incluir na estimação como variável observada a variável de produtividade, horas trabalhadas, ou de estoque de capital.
Ao avaliar as implicações do modelo, foi possível notar que embora variações na liquidez externa não tenham um impacto relevante no produto na maior parte do período analisado, foi o choque mais relevante para explicar a crise de 2008. Ao mesmo tempo, os choques nos termos de troca têm uma importância na recuperação do produto, principalmente no período pós-2008.

BIBLIOGRAPHY
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1 Para confirmar se esta mudança foi significativa basta fazer um VAR com uma dummy de pulso para o terceiro trimestre de 2008 e as taxas de crescimento. Os resultados estão apresentados em uma versão anterior publicada como working paper. 2 Na versão publicada como working paper está incluído um outro modelo mais simples, como forma de deixar clara a intuição da relação entre choques financeiros e a PTF. 3 Consequentemente, a participação do trabalho  de modo a obter o parâmetro β.


A. APÊNDICE A - MODELO COMPLETO LOG-LINEARIZADO
A partir das equações do modelo, obtemos o estado estacionário, e em seguida as variáveis log-linearizadas em torno do estado estacionário. As equações para se obter as variáveis no estado estacionário  são
O próximo passo para permitir computar a dinâmica é a obtenção das equações log-linearizadas. A partir das equações de equilíbrio do modelo, obtemos as formas log-linearizadas a seguir.
no qual as variáveis com representam o desvio da variável em relação ao steady-state
Além disso, as equações dos processos estocásticos de  são:

B. APÊNDICE B - POSTERIORS ESTIMADOS


Entre renovadores e reacionários: a recepção estética e política da obra de Nietzsche na imprensa brasileira no período de 1893 a 1945

Abstract:

This paper aims to present eighteen texts on Nietzsche published in the Brazilian press in the period from 1893 to 1945. These studies show that two factors of Brazilian culture that period guide the philosopher's reading: the aesthetic and cultural renewal and the political reaction religious. All texts transcribed sequence following the chronological order of their publications.
Key words: Nietzsche; reception; Brazil; press; Jornal do Commercio; Gazeta de Notícias; Fon-fon; O Commercio; Almanaque do Garnier; América Brasileira; Jornal do Recife; A Noite; Diário de Notícias; A Manhã
Como Nietzsche, todos exigimos que nos cantem um canto novo. Paulo Prado. Poesia Pau Brasil.1924.
O super-homem de Nietzsche, alma da filosofia heroica do nazismo e, até certo ponto, do fascismo, escapa aos quadros cristãos-democráticos do espírito ocidental. Diário Carioca, Camillo Avelino, RJ, 1939.
I
Desde o final do século XIX Friedrich Nietzsche "tem presença marcante na cultura brasileira. Nas artes plásticas, no teatro, na literatura, nas ciências humanas em geral, na política, para dizer o mínimo, seu pensamento faz-se sentir" 2 . Sua obra, desde então, tem sido às vezes tomada como algo incondicionado, que existe em si e por si, agindo sobre seus leitores por uma força própria que dispensaria explicações. Esse pressuposto tem repousado na convicção de que há certa virtude criadora no seu autor, muito misteriosa e pessoal; e mesmo quando desfeita pela análise, ainda assim permanece um pouco nos seus leitores, na medida em que se opõe às tentativas de definir os fatores que orientam as leituras de sua obra 3 . É, portanto, justamente para desfazer equívocos como este que o trabalho de recepção se impõe. Para tanto, a pesquisa de recepção procura investigar a filosofia de Nietzsche em diferentes contextos, a fim de revelar os fatores que orientam as leituras de sua obra no Brasil 4 .
Nessa direção, transcrevemos aqui alguns textos sobre Nietzsche publicados na imprensa brasileira no período de 1893 a 1945 que expressam, ora de forma visível, ora de maneira mais implícita, a predominância de dois fatores da cultura brasileira norteando as leituras de sua obra. Os fatores são, de um lado, a renovação estético-cultural em curso desde o final do século XIX, primeiro entre os autores germanistas, passando depois pelos pré-modernistas até, por fim, pelos autores do movimento modernista e, de outro lado, a reação político-religiosa mobilizada contra essa mesma renovação. Os textos transcritos foram publicados na forma de poema, artigos, ensaios, resenhas e conferências. Pertencem a autores conhecidos e atuantes na cultura brasileira da época, como Araripe Júnior, Augusto dos Anjos, Fábio Luz, Elysio de Carvalho, João Ribeiro, Albertina Bertha, Lima Barreto, Renato Almeida, Evaristo de Morais Filho, Julio Erasmo, Padre Leonardo Mascello, Corrêa Velho, Ernani Reis, Padre Carlos Barromeu, Hamilton Barata, João Scapino, Cleto Seabra Veloso.
Quanto ao primeiro fator, a recepção estética, a seleção de textos é composta por trabalhos quase sempre engajados no projeto de renovação estético-cultural predominante a partir do movimento modernista; e, quanto ao segundo fator, a recepção político-religiosa, a seleção contempla textos que defendem o filósofo das apropriações políticas que corroborem governos autoritários, no Brasil e na Europa, e ainda com textos de caráter reacionário, no sentido de se contraporem à renovação em curso e tentarem retomar os valores tradicionais, associando as obras de Nietzsche a Hitler, Mussolini e Getúlio Vargas, às vezes a fim de legitimar suas políticas dominadoras e, ainda outras, a fim recusar e obscurecer o pensamento do filósofo. Noutras palavras, a grande polêmica de então se situa em torno da leitura das obras nietzschianas ora numa chave estético-renovadora, utilizadas como fonte inspiradora para grupos de intelectuais engajados num projeto de renovação das artes, da linguagem e da cultura brasileira em geral; ora numa chave político-reacionária, que se colocava contra as mudanças em curso, sendo então utilizadas como contraponto da reação político-religiosa preocupada em assegurar e conservar os valores da tradição espiritualista, a moral cristã, o nacionalismo ufanista, a honra à pátria e à família, e que sempre teima em relacionar sua obra com as guerras em curso na Europa desde o final do século XIX, a guerra franco-prussiana, a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.
Como veremos, esses fatores comparecem de maneira expressiva na preferência por certos livros do filósofo em detrimento de outros, na seleção de determinadas ideias e no negligenciar de outras, no enfatizar um estilo de escrita - particularmente o aforismo - a despeito de outros.
Todos os textos publicados neste dossiê foram atualizados segundo o acordo ortográfico vigente. Não obstante, no caso de alguns vocábulos estrangeiros e outros próprios da filosofia nietzschiana, optamos por não atualizar pela tradução corrente, a fim de conservar a identidade e o contexto histórico do escrito. Para os nomes próprios adotamos a seguinte orientação: os nomes de autores e pessoas foram conservados na grafia original do período, com exceção de alguns já fixados na ortografia atual.
II
A imprensa brasileira do final do século XIX e início do XX recepciona a obra de Nietzsche em revistas, jornais e almanaques de orientação bastante divergentes. Num primeiro momento, nota-se que o filósofo aparece principalmente em diários e periódicos engajados na divulgação de ideias ditas modernas, entre os quais podemos destacar os diários Gazeta de Notícias Correio da Manhã, as revistas Fon-fon, a Revista de Antropofagia, Festa, a Revista da Semana e, em particular, a revista O Pirralho, periódico literário, político e de humor, fundado por Oswald de Andrade, em 1911, com a intenção de repensar a arte brasileira. Na revista O Pirralho o pensamento de Nietzsche enseja propostas de renovação estética e política, fornece elementos para alavancar uma ruptura com a forma de criar e pensar a arte tradicional, romântica, parnasiana etc. Nessa direção é que Amadeu Amaral publica o texto "O super-homem"; o termo é utilizado no periódico a fim de corroborar a luta pelo civilismo de Rui Barbosa contra a ditadura de Pinheiro Machado.
Entre as diversas referências ao filósofo O Pirralho traz a expressão "nós, os modernos, os supremos, os filhos de Nietzsche", com a qual indica a importância do pensamento nietzschiano para a produção dos intelectuais desse período 5 . Ela aponta para os intelectuais posteriormente considerados modernistas, que então começam a se agrupar. O desconhecido autor da expressão é preciso em suas palavras, indica a quem o texto se dirige em letras garrafais, Ignácio da Costa Ferreira, mais conhecido como Ferrignac, advogado, ilustrador, desenhista, caricaturista e escritor. Com o trabalho intitulado Natureza Dadaísta, participou da Semana de Arte Moderna. Nesse clima cultural que culminará no Modernismo e que pretende, tal como afirma o autor do trecho, "a regeneração estética da terra", Nietzsche vincula-se às mudanças culturais produzidas pelos intelectuais que, nas mais diversas áreas da criatividade, poesia, teatro, música, artes plásticas, buscam uma ruptura com a tradição e a superação dos padrões artísticos da época. Neste horizonte de transição, sua filosofia incide no processo de ruptura e não se limita a uma moda passageira, é antes uma importante fonte de renovação estética. É nessa direção que Oswald de Andrade aponta o livro Amor Imortal, de José Antonio Nogueira, como sendo uma produção de inspiração nietzschiana e algo "novo no nosso meio produtivo", pois "de fato", "não se joga assim Nietzsche à cabeça d'um público habituado a ver estreias pouco complicadas sem ser novo pelo menos". Alinhado com a corrente espiritualista, o autor se vale da ideia da "Volta Eterna" de Nietzsche para pensar uma nova noção de eternidade e imortalidade da alma 6 . Alertando contra esse uso da filosofia de Nietzsche em favor do espiritualismo, Oswald de Andrade afirma que ele se deteve além da conta em Nietzsche, "e pior, [que] em filosofia ficaste a quem dele" 7 .
No entanto, do período da Primeira Guerra Mundial adiante são abundantes e controversas as menções a obra de Nietzsche na imprensa de orientação menos progressista e mais conservadora, seja, por exemplo, na revista católica A Ordem, no jornal Correio Paulistano, bem com diário A Razão, de orientação integralista; onde o chefe do integralismo, Plínio Salgado, declara ver em Nietzsche a violência do individualismo e do egoísmo burguês 8 . Nesses diários e periódicos as referências ao filósofo tendem a associá-lo ao nazifascismo, não raro sua filosofia é interpretada como um instrumento a serviço do imperialismo belicista germânico da época. Muitos de seus textos seguem uma perspectiva reacionária à utilização de sua filosofia realizada por autores como Graça Aranha e Oswald de Andrade. É o caso do texto de Menotti Del Picchia, Schopenhauer e a política, em que o futuro integrante do movimento Verde-Amarelo declara que "as massas populares germânicas vinham sendo trabalhadas por uma filosofia brutal e egoísta, donde ressaltava um pan-germanismo talhado pela vontade de Zaratustra". Assevera ainda uma vez mais a sua posição afirmando que o imperialismo germânico pretendia construir uma raça-superior e que "o método para a consecução" desse objetivo "está todo na velada crueldade do super-homem" 9 .
Assim, esses dois fatores, isto é, a renovação estético-cultural e a reação político-religiosa comparecem nas leituras da obra de Nietzsche desde os autores germanistas, como Silvio Romero, Farias Brito, João Ribeiro, Mário Lima etc. Suas divulgações das ideias germânicas suscitarão reações conservadoras, isto é, contrárias à renovação por eles empreendida no panorama da filosofia no Brasil, na medida em que seu germanismo "abriria uma janela escancarada pela qual entraria 'uma rajada de pensamento livre, de cultura moderna que fecundou numerosos espíritos'" 10 .
Tanto que é justamente em reação aos germanistas que aparece o primeiro artigo inteiramente dedicado a uma análise da filosofia de Nietzsche no Brasil, publicado em 1893, por Julio Erasmo, no diário carioca Gazeta de Notícias; texto aqui transcrito. Em seu artigo, o autor condena "as tendências filosóficas de algumas escolas alemãs que estão surgindo", por se mostrarem "preconizadoras do imoralismo". Julga Nietzsche um pensador aristocrático, cínico, autor de teorias perniciosas e em nada autêntico em suas ideias, mas apenas um reprodutor dos gregos e modernos: "Atualmente", diz o autor, referindo-se aos germanistas, "fala-se com insistência sobre Frederico Nietzsche, o chefe do neo-cinismo, ou dos cínicos aristocráticos". Também discorre sobre a biografia do filósofo, fala de sua moral de nobres e plebeus, mostra dificuldades para traduzir termos como übermensch, vertendo por "sobrehomem", entendido como "o tipo produto de rigorosa seleção". Nesse tom reacionário, considera, por fim, que as teorias de Nietzsche são deletérias, perniciosas, deprimentes e perturbadoras da ordem moral.
Em seguida, transcrevemos o texto de Araripe Júnior, no qual o crítico propõe refletir sobre o sentimento trágico do século XIX, encontrando na obra do jovem Nietzsche, A origem da tragédia, a exposição do sentimento trágico moderno, em particular do século XIX, e não do sentimento trágico grego, como se costuma creditar. Publicado no anuário carioca Almanaque Garnier, em 1904, foi reeditado depois na sua Obra Crítica 11 . O texto é significativo porque segue o rumo da renovação estética em curso, considerando o sentimento trágico a base da obra artística do século XX.
Temos ainda um poema inédito, de Augusto dos Anjos, bastante breve, porém todo dedicado a Nietzsche, publicado no diário pernambucano O Commércio, em 1905 12 . O texto é significativo por se tratar de um poema que não foi incluído na publicação original do livro Eu, de 1912, e também porque retrata bem seu autor: um poeta pré-modernista, difícil de ser localizado, visto quase sempre "entre o fim da poesia simbolista no Brasil e os primeiros sinais de uma poesia moderna que só nascerá em 1922" 13 . Nele, o poeta paraibano homenageia o filósofo, discorre sobre sua vida e morte e questiona, de maneira exclamativa, sua vida de pensador, exclusivamente dedicada à construção do pensamento filosófico, embora abalada pela loucura.
A leitura da obra de Nietzsche em favor de uma renovação estética e política, embora neste caso de caráter elitista e conservadora, é ainda mais visível na produção de Elysio de Carvalho. Ele mesmo se definia como um intelectual fiel à filosofia nietzschiana, com a qual julga ter procurado pensar por conta própria a cultura brasileira. Por essa razão, talvez, em resenha crítica dedicada ao seu livro Modernas correntes estéticas na literatura brasileira, publicada pelo diário O Paiz, seja dito que seu autor "é um dos "bons europeus", de Nietzsche", pois "é como "bom europeu" que é crítico do Brasil" 14 . Não obstante, na verdade, Elysio estava engajado na defesa dos fundamentos históricos, políticos e estéticos de um nacionalismo radical; seu pragmatismo já anuncia Monteiro Lobato e outros intelectuais defensores da siderurgia e da exploração do petróleo brasileiro 15 . Com seu ideal nietzschiano de cultura, no livro O Problema da Cultura, concebe "o niilismo dionisíaco que preconiza o ideal trágico, a cultura estética do eu, o amor fati, a gaia ciência [como] esforço para o estabelecimento de uma civilização verdadeiramente humana" 16 . Entretanto, por trás de seu "niilismo dionisíaco" está "o perfil truculento da alegoria restauradora dos dissidentes: a ideologia do ideal trágico de vida com que se mede o presente emperrado da nação, em contraste com o ufanismo delirante do futuro, marcado pela admiração por todas as formas de poder e de grandeza" 17 . Prova disso é que na revista América Brasileira, por ele produzida e dirigida, a filosofia de Nietzsche comparece principalmente no contexto dos estudos sobre a formação política e cultural brasileira, sendo o Marques de Pombal interpretado como a "imagem" do "superhomem". Ele dá início a um nacionalismo radical cuja base ideológica se concentra na alegoria do heroísmo, isso explica porque considera que "o Marquês de Pombal é, com efeito, um dos mais lídimos exemplares dessa espécie a que Nietzsche chamou de superhumana" 18 .
No ensaio Trágica história de um criador de valores, aqui transcrito, de início Elysio destaca a precedência do pensador em relação à sua obra, considerando que o lado mais atraente do estudo das obras de Nietzsche é o próprio filósofo, sua vida, suas vivências, dores e sofrimentos, sua atitude afirmativa diante da vida tal qual ela é e como poderia ser. Contudo, na contramão dos estudos predominantemente biográficos comum à época, Elysio é um dos primeiros autores brasileiros a tentar uma interpretação dos textos de Nietzsche, para então melhor compreender o filósofo, visto como um pensador de temperamento, conceito este emprestado da filosofia subjetivista ou de confissão (Bekenntnissphilosophie) em oposição à filosofia de conhecimento (Erkenntnissphilosophie), remetidos por ele a Kurt Breysing, um admirador fanático de Nietzsche 19 .
Fábio Luz, escritor anarquista, médico e intelectual atuante na cultura brasileira do momento, critica duramente a renovação estético-cultural de inspiração nietzschiana promovida por Elysio de Carvalho. No texto de sua autoria aqui transcrito, publicado em 1907, no anuário carioca Almanaque do Garnier, o poeta começa apontando Elysio como divulgador das obras de Nietzsche no Brasil, quando então, de fato, apenas poucos conheciam "o autor deZaratustra". Em seguida, com uma crítica sarcástica e virulenta, sugere que "As nebulosidades de Nietzsche, a sua filosofia egoística e dionisíaca, os símbolos e infinitos parágrafos da Aurora, a Origem da Tragédia e oAnticristo precisavam, como livros santos, como alcorões de novos credos, da interpretação dos textos, e Elysio de Carvalho atirou-se a esse trabalho insano de vulgarizar e popularizar suas obras". Nesse sentido, assevera sua crítica acusando a propaganda feita pelo vulgarizador dos símbolos nietzschianos e seus novos valores morais de ser inútil e perniciosa aos jovens. Por fim, julga Elysio de Carvalho como "um fraco tipo do superhomem, com sua adiposidade, e apesar ou por causa dela tem saúde fraca, nefralgias frequentes, irritabilidade neurastênica, enxaquecas que o tornam intratável quando o acometem. Será um representante man das teorias exóticas do individualismo, do egoísmo sublimado do anarquismo transviado, mas não é um superhomem psiquicamente superior, capaz de vencer e esmagar".
Portanto, se de um lado havia quem falasse das ideias estéticas de Nietzsche em favor da renovação, havia de outro quem as mencionasse para reagir politicamente contra essa mesma renovação, a fim de fortalecer a corrente espiritualista, desejosa de retomar e conservar os valores cristãos, sua moral e 'os bons costumes'. É para essa última direção que o texto A estética de Frederico Nietzsche aponta, da autoria do Padre LeonardoMascello, publicado no Jornal do Recife, a 10 de Novembro de 1911. O autor se mostra motivado a escrever sobre o filósofo por causa das inúmeras publicações a seu respeito, como a biografia trazida ao público por sua irmã, Elisabeth Förster. Contudo, discorre apenas rapidamente acerca da vida do pensador, uma vez que seu objetivo é apontar na sua estética alguns defeitos e equívocos. Passa então a uma abordagem da obra Origens da tragédia, recorre aos trabalhos de Ettore G. Zoccoli e Attillio Corsi. Nessa direção, afirma "que em nenhuma das obras de Nietzsche há continuidade harmônica de exposição ou de investigação, a não ser nas Origens da tragédia, o único livro dele que apresenta um desenvolvimento progressivo de uma teoria, até tornar-se quase um tratado". Alega que os críticos dividem as suas concepções crítico-estéticas em dois períodos: um pro e outro contra Wagner. O autor mostra certo domínio dos temas da estética do jovem Nietzsche, embora faça dele um devedor das teorias de Schopenhauer e da música de Wagner mais do que de fato teria sido.
Transcrevemos ainda um texto anônimo, com título Block-Notes Mundial, publicado na revista carioca Fon-fon, em 1918. É um texto significativo por ser uma das primeiras leituras empenhadas em afastar as obras de Nietzsche do imperialismo germânico. Além disso, se mostra importante por mencionar a recepção francesa do pensador.
Em seguida, vê-se que a escritora nietzschiana Albertina Bertha foi uma intelectual atuante e renovadora, seja por sua luta contra a hegemonia masculina nos meios literários da época e a favor do voto feminino e do divórcio20 , seja, também, por sua produção, tanto no sentido de compor romances de inspiração nietzschiana, quanto no sentido de ser a primeira mulher a divulgar e estudar o pensamento do filósofo no Brasil. Em sua conferência realizada no salão nobre do diário carioca Jornal do Commercio, no mês de Agosto de 1914, aqui transcrita, a feminista adverte não ser possível estudar a obra de Nietzsche de maneira fragmentaria, uma vez que "a sua filosofia não obedece a sistemas, não tem ordem, não é catalogada". Daí seguiria, julga a escritora, "a grande dificuldade de ser ele abordado, compreendido e analisado". Faz ainda apontamentos acerca do estilo aforismático do filósofo, considerando que este seria formado por períodos curtos, sintéticos e que muitas vezes nada tem com os antecedentes. Sua conferência seria depois publicada na primeira série de seus Estudos, de 1920, abrindo o livro com o título "Nietzsche". De modo geral, seu estudo sobre o filósofo foi considerado pela crítica como revelador de Nietzsche em nosso meio.
Nele, contudo, a autora nada mais fez do que especular sobre a biografia, a bibliografia e, muito rasteiramente, ratificar alguns preconceitos correntes acerca de algumas ideias já conhecidas da filosofia de Nietzsche na época. Em comparação com autores como Paulo Prado, que menciona o filósofo a fim de com ele corroborar a renovação estética em curso no momento, Albertina Bertha se mostra reacionária, no sentido de considerar que Nietzsche "usa dos mesmos recursos dos ensinamentos cristãos", sendo ele o expoente do mais alto idealismo, em busca da "grande pausa da beleza". Discorre sobre muitos temas de sua filosofia, como a arte, a moral, o niilismo, a mulher, concebe como monista a teoria da vontade de poder.
É nessa direção, justamente, que Lima Barreto, na resenha dedicada ao seu livro Estudos, aqui transcrita, exclama fortemente contra o Nietzsche divulgado por Albertina Bertha. Em particular, protesta irritado e de maneira sarcástica contra a sua comparação do conceito do übermensch com o Nirvana búdico e o Paraíso cristão. Contudo, para contrapor-se ao Nietzsche estudado pela feminista, Lima Barreto acusa o filósofo do "flagelo que vem sendo a guerra de 1914", dizendo que ele "deu à burguesia rapace que nos governa uma filosofia que é a expressão de sua ação". Mais ainda, considera que ele "Exaltou a brutalidade, o cinismo, a amoralidade, a inumanidade e, talvez, a duplicidade" 21 . De fato, Lima Barreto estabeleceu um diálogo tenso com muitos conceitos e ideias de Nietzsche, isso pode ser percebido, em tons diversos, desde as anotações de leituras, artigos, crônicas até a composição de alguns de seus principais personagens de ficção 22 .
O brevíssimo texto de João Ribeiro, O verso, aqui transcrito, publicado em 1923, na revista carioca Fon-fon, expressa a atmosfera de renovação das artes em curso no momento, onde a obra de Nietzsche tem presença constante, como era o caso nas reflexões estéticas do germanista. Tanto é assim que os ensaios de João Ribeiro, publicados no livro Páginas de Estética, de 1905, segundo Elysio de Carvalho manifestam um "gênero tão comum hoje entre os críticos alemães", no qual "Frederico Nietzsche se tornou mestre inexcedível e, ainda mais, o tornou difícil", que, "sem custo [o autor] obteve o que na filosofia nietzschiana se chama a conservação da cultura, entendida como unidade do sentimento, do pensamento e do estilo, como unidade do estilo artístico em todas as manifestações da vida" 23 .
Em seguida, temos o texto Frederico Nietzsche, publicado na revista carioca Fon-fon, em 1933. Embora seja de carácter predominantemente biográfico, ainda assim seu autor, Corrêa Velho, discorre sobre algumas das produções de Nietzsche, julga que ele deixou uma obra inacabada e de aparência caótica. Destaca como obra prima "Assim falava Zaratustra", a qual considera de uma inigualável beleza lírica, e mesmo como um dos mais famosos poemas conhecidos em prosa.
Na sequência, transcrevemos o texto Nietzsche e Getúlio Vargas, publicado no diário carioca A Noite, em 1939. Trata-se de uma entrevista feita por Alvoro de Las Casas para o jornal chileno El Mercurio, reeditada no jornal carioca pelo jornalista Ernani Reis. Na entrevista, Nietzsche aparece como mentor intelectual de Getúlio Vargas, sendo o único filósofo a escapar ao naufrágio dos ídolos, conforme dito pelo próprio Vargas. Em pleno regime do Estado Novo, considera-se que a feição nietzschiana perdura e domina no espírito do ditador brasileiro, ensejando semelhanças entre sua filosofia e o governo autoritário de Vargas.
Com essa mesma tonalidade político-reacionária, temos o texto Nietzsche triunfante, de Hamilton Barata, publicado em 1940, no jornal carioca Gazeta de Notícias. Nele, seu autor procura ler algumas ideias da filosofia de Nietzsche segundo o contexto político brasileiro do momento, aproximando o filósofo a Getúlio Vargas, para assim legitimar seu governo autoritário e seu posicionamento internacional diante da Guerra ora em curso na Europa. A utilização política das ideias do autor de Zaratustra em favor do governo Vargas é a tônica principal do texto, sendo Nietzsche interpretado como o terrível profeta da dominação e da força máscula cuja lei é a sua própria vontade de potência.
Nessa mesma senda, temos o texto Nietzsche em voga, publicado em 1941 pela revista de orientação católica A Ordem, no Rio de Janeiro. Seu autor, o padre Carlos Borromeu, considera que Nietzsche teria negado a moral tradicional, concebendo em seu lugar outra, porém imoral e brutal; se mostra assim reacionário, no sentido de pretender retomar e conservar a moral e os valores da religião cristã, acusando o filósofo de ser responsável pela Guerra ora em curso na Europa.
De maneira semelhante, temos ainda o artigo Frederico Nietzsche, do modernista Renato Almeida, publicado no diário carioca A Manhã, em 1944. Tal como outros publicados no mesmo ano, vem a público a propósito da celebração do centenário de nascimento do filósofo. Alegando identificar certo irracionalismo e mistíssimo no pensamento de Nietzsche, Renato Almeida procura associar sua obra à política nazista. Em sua abordagem, se vale de comentadores como Spengler e Simmel, reage contra a utilização da filosofia de Nietzsche em favor da renovação estética colocada em curso pelo autor modernista Graça Aranha.
Na contramão da insistente associação da obra de Nietzsche com políticas autoritárias, seja de Hitler, Mussolini ou Vargas, temos o artigo O centenário de Nietzsche e o nazismo, de Evaristo Marais Filho, publicado no jornal carioca Diário de Notícias, em 1945. Em oposição às abordagens reacionárias, tão comuns à época, que teimam em associar Nietzsche com o nazifascismo, adiantando o que posteriormente autores como Antonio Candido fará, Evaristo procura tirar algumas conclusões metodológicas e políticas da obra do filósofo contrárias ao espírito nazista. Acusa ainda os suspeitos e apressados divulgadores de sua filosofia, como Will Durant, de injustamente situá-lo como mandante espiritual dos crimes praticados pelos sanguinários bandidos nazifascistas 24 .
Nessa mesma direção segue o texto Nietzsche ainda cresce, de Cleto Seabra Veloso, publicado no jornal carioca Diário de Notícias, em 1945, no qual seu autor procura afastar a obra de Nietzsche das apropriações nazistas.
Por fim, dentro da chave de leitura reacionária, transcrevemos o texto Nietzsche, filósofo da Alemanha nazista, de autoria de João Scapino, publicado no jornal carioca Diário de Notícias, em 1945. Seu autor julga Nietzsche um mostro e filósofo por excelência da Alemanha nazista. Nesse sentido, destaca a teoria da "Vontade do Poder" como sendo um fluxo vital e que serviu como fonte de inspiração a Hitler e Mussolini, sugerindo a crueldade, a agressividade e a política de expansão da Alemanha nazista.
De fato, desde o final do século XIX e início do XX não faltou quem censurasse a formação de uma opinião unilateral e falsa sobre a obra e a personalidade de Nietzsche; denunciando, por exemplo, sua irmã, Elisabeth Förster, de fundar sua glória sobre bases ilegítimas. Como bem admitiu o modernista Sérgio Buarque de Holanda, havia "razão nessa censura, partida principalmente dos homens de Esquerda, dos socialistas". Não obstante, ele mesmo também questiona: "Mas seria, por ventura menos ilegítima e menos superficial a atitude desses mesmos homens quando pretendiam criar um Nietzsche à sua imagem?" 25 .
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3Cf. "O escritor e o público". In CANDIDO, Antônio. Literatura e sociedade. Rio de Janeiro, Ouro Azul, 12° ed., 2011, p. 83.
4Cf. Nietzsche: aqui e lá. Entrevista com Scarlett Marton. Por João Neto, in Revista Filosofia, Editora Escala (disponível em http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/75/artigo271728-3.asp).
5Edição 238, de 20 de Maio de 1917.
6NOGUEIRA, José Antonio. (1925). Amor imortal. Narrativas de uma dolorosa iniciação nos mistérios da morte e do além. RJ, 3° ed. Livraria da Federação Brasileira.
7ANDRADE, Oswald. O Pirralho, edição 192, 19 de Junho de 1915.
8SALGADO, Plínio. Civilizemos a Europa!A Razão, Fortaleza, 18 de Setembro de 1936. Contra essa reação conservadora, Oswald de Andrade aponta Plínio Salgado como "um autêntico clandestino no Modernismo", procura assim reabilitar Nietzsche afastando-o, no âmbito internacional, das políticas nazifascistas e, no âmbito nacional, de seu político pelo movimento Verde-Amarelo, afirmando que o filósofo "nunca subiria as escadas da Chancelaria do Reich", e "foi sobretudo um grande honesto. Nele se consubstancia historicamente a primeira consciência do homem autônomo que o individualismo iria dar". In Informe sobre o Modernismo. Conferência realizada em 15 de Outubro de 1945, na Unicamp.
9PICCHIA, Menotti Del. Schopenhauer e a políticaCorreio Paulistano. São Paulo, 07 de Maio de 1918.
10COSTA, Cruz. Contribuições à História das Ideias no Brasil (O desenvolvimento da filosofia no Brasil e a evolução histórica nacional). Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1956, p. 297.
11 ARARIPE JR., T. A. Obra Crítica de Araripe Júnior. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa, volume V 1911 e Anexos, 1971, p. 86-89.
12 Poema disponível no blog Liramundo: https://liramundo.wordpress.com/2012/12/09/sobre-nietzsche-e-o-tragico-em-augusto-dos-anjos.
13CARPEAUX, Otto Maria. "Apresentação". In Toda Poesia/Augusto dos Anjos. São Paulo, 3. Ed. ver. Paz e Terra, 1995, p. 11.
14 O Paiz, Novos Livros, 08 de Agosto de 1907, p. 04.
15Cf. NUNES, Cassiano. "Elysio de Carvalho e o espírito do seu tempo". In Obras de Elysio de Carvalho: ensaios. Brasília, Universa -UCB, 1997, p. 13-14.
16CARVALHO, Elysio. Obras de Elysio de Carvalho: ensaios. Brasília, Universa -UCB, 1997, p. 24.
17Conforme aponta o estudo de Antonio Arnoni Prado, Itinerário de uma falsa vanguarda, a renovação promovida por Elysio de Carvalho está alinhada "ao conservadorismo elitista da virada do século, cujas ideias definirão uma facção do Modernismo de 22". Ele "antecipa aqui um panorama literário que não ficará apenas no romance e no teatro de Graça Aranha, ou mesmo no descomedido rasgo ufanista de Toda a América, mas irá além, se compararmos, por exemplo, as teses da América Brasileira (1922) com a linha do Movimento Brasileiro, doManifesto Nhengaçu, da Novíssima ou do ideário do grupo d Lanterna Verde (...). Ver PRADO, Antonio Arnoni.Itinerário de uma falsa vanguarda: os dissidentes, a Semana de 22 e o Integralismo. Prefácio de Sergio Miceli. SP, Ed. 34, 2010, p. 41-49.
18CARVALHO, Elysio. Pombal e a civilização brasileiraAmérica Brasileira, n. 14, Rio de Janeiro, Fevereiro de 1923, p. 42.
19LEPENIES, Wolf. As três culturas. São Paulo, Edusp, Vol. 13, 1996, p. 273.
20MARTINS, Anna Faedrich. A produção de autoria feminina: Albertina Bertha e a imprensa periódica. In Pontos de Interrogação. Vol. 2, n. 1, jan./jun. 2012, p. 44-58.
21BARRETO, Lima. EstudosGazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 26 de Outubro de 1920, 02.
22FIGUEIREDO, C. Uma corda sobre o abismo: diálogo entre Lima Barreto e Nietzsche. Alea. v. 6 N. 1 Jan./Jun. 2004 p. 159-173, p 01.
23CARVALHO, Elysio. "João Ribeiro". In As modernas correntes estéticas na literatura Brasileira. Rio de Janeiro, 1907, p. 289.
24Importa mencionar que essa divulgação, feita na História da filosofia, de Will Durant, foi traduzida por Monteiro Lobato e Godofredo Rangel.
25HOLANDA, Sérgio, B. Elisabeth Förster - NietzscheFolha da Manhã. São Paulo, 19 de Dezembro de 1935, p. 06

Friedrich Nietzsche

RESUMO:
Artigo publicado no diário carioca A Manhã, em 1944. Tal como outros editados no mesmo ano, vem a público a propósito da celebração do centenário de nascimento do filósofo. Alegando certo irracionalismo e misticismo na obra de Nietzsche, o autor procura associar sua obra à política nazista. Em sua abordagem, se vale de comentadores como Spengler e Simmel.
Palavras-Chave: Nietzsche; irracionalismo; misticismo; nazismo

Abstract:

Article published in the daily A Manhã, in 1944, in Rio de Janeiro. Like other published the same year, publicly concerning the celebration of the birth centenary of the philosopher. Identifying certain irrationalism and mysticism in Nietzsche's work, the author tries to associate his work to Nazi policy. In their approach, relies on commentators as Spengler and Simmel.
Key words: Nietzsche; irrationalism; mysticism; nazism
Frederico Nietzsche nasceu há justo um século, em Röcken, não será celebrado hoje na Alemanha nazista, donde foi renegado por ser suspeito de sangue judeu. No entanto, sua moral, segundo a qual a força justifica todas as coisas, é a prática da Gestapo. Desde 1938, Himmler vem servindo o banquete dos eleitos, no qual os feches nazistas se veem repastando a tripaforra. Os cordeirinhos nacionais, a princípio, algumas aves circunvizinhas e depois o gado europeu, tudo foi abatido para o grande regabofe, no qual os fracos foram devorados impiedosamente.
E, sob a vigilância das brigadas da SS, os alemães tiveram de conciliar a existência do altruísmo sobre os princípios agnósticos, para satisfazer o bem coletivo, e do egoísmo sobre o altruísmo, para se superar e atingir a essa raça privilegiada, que deveria dominar o mundo. Essa moral pregada por Nietzsche não pode ser mantida exclusivamente pelas energias individuais, que acabam por se baralhar e se confundir, mas tem de ser garantida pelas forças de assalto e pelos gabinetes de tortura da Gestapo. Só dessa forma se criarão os fanáticos capazes de suster e morrer por essa ordem de coisas.
A loucura genial de Nietzsche, que desejou não ter escrito com palavras, mas com relâmpagos, tentou, em aforismos e epigramas, sintetizar a estranha teoria germanista da força e, ainda que lhe tivesse emprestado uma grande beleza estética, pois Nietzsche foi antes de tudo um artista, não lhe tirou nem a brutalidade nem a crueza. A apologia da rapina conduziria o mundo ao desencadear dessas forças, que Keyserling chama de telúricas, sob as quais os deuses do Wahalla nazista e seus profetas se afundarão no sinistro crepúsculo que se aproxima. A voz de Nietzsche será sempre ouvida pela sua vibração artística, mas a sua essência repugnará os homens do futuro, que só se terão superado se dominarem pela inteligência e pelo sentimento, os imperativos do instinto.
***
Para fixar a figura de Nietzsche, recorro a um conceito de Spengler, segundo o qual ele era quase sempre um determinado, no estilo, no tom e na atitude da sua filosofia por um romantismo retardatário. Na realidade, nele se fundem e se exaltam todas as forças do romantismo e o eu hipertrofiado transborda, não em mero devaneio, mas como expressão da vontade, que se transforma num misticismo novo. Ele tomou a vontade schopenhaueriana, como essência superior, não para fazê-la uma força do aniquilamento, antes a transmudou num valor fundamental, "fato elementar de onde resulta todo o vir-a-ser, toda a existência, toda a ação". Como, porém, ela não tem objeto fora de si mesma, explica Simmel, ela se quer a si própria, isto é, se quer mais forte, vontade do poder. Essa vontade do poder é então alguma coisa de básico, porque justifica a existência, que digo? é a existência, em torno da qual tudo gravita, fundamento do espírito humano, se com ele mesmo não se vai confundir.
Mas, vamos vagarosamente. Para Nietzsche todo o primado da razão é absurdo, ou mesmo tolo. O conhecimento é um estado de equilíbrio espiritual e uma sugestão é sempre o ponto de partida de toda filosofia. Por aí se desvaloriza logo o conceito da verdade e se entra em terreno pragmatista. Nietzsche nos dará sucedâneos, mas o seu antirracionalismo está marcado e Spengler acha que o que mais o ligou a Schopenhauer foi a destruição que este fez da metafísica de grande estilo e parodia involuntariamente o mestre Kant.
Não nos detenhamos nessa rápida viagem, nos domínios de Nietzsche. Há montanhas ásperas e perigosas a galgar, através da transmutação de valores, a que se propõe o ardente pensador. Munamo-nos de vontade, com a qual a personalidade se vai engrandecer, aumentar e explodir. Essa vontade do poder vai querer alguma coisa. Mas Nietzsche olhou em derredor e viu que também estava preso, acorrentado, decadente. Era um escravo e dispôs-se, com a foice da vontade, a quebrar as tremendas cadeias.
Era a religião ensinando o sofrimento. Era a democracia degenerando o estado. Era a arte corrupta e o pessimismo aniquilante. Então, Nietzsche - porque é preciso, e sempre e cada vez mais para a frente afastar-se passo a passo da decadência - nos deu a lição da vitória pela vontade, vencendo todos os entraves, para o que o homem, pela sua própria força, se recupere e se transforme no super-homem.
Não saberia dizer para que, pois Nietzsche aboliu, com Kant, o conhecimento das causas e toda a finalidade, negou depois a Moral, matou a Deus e nos deixou apenas mergulhados no oceano da fatalidade, que nos ensinou a amar. "Amor fati"... Ele destruiu, uma depois da outra, todas as bases do conhecimento e nos abandonou num deserto imenso, apenas guiado pela vontade do poder, que se torna instrumento inútil. E ele mesmo sentiu, não raro, o abismo sem ressonâncias, onde o repouso é impossível e as sombras o perturbaram e tudo quanto trucidou se renovava em perpétuas alucinações.
A vontade queria voar, confessa na "Gaya Scienza". E seu voo mais audaz foi o poema de Zaratustra, cujo símbolo não será por demais reavivar. Aos 30 anos, Zaratustra deixou sua pátria e foi para a montanha, onde viveu dez anos, servido por dois animais - a águia, símbolo do orgulho; a serpente, símbolo da prudência. Quando se tornou rico de sabedoria, desceu a montanha e, no caminho, encontrou o velho eremita e espantou-se de que ele não soubesse que Deus tinha morrido. Na cidade vizinha deparou-lhe o acaso uma multidão, à espera do dançarino de corda, e ele lhe falaram. Depois subiu a montanha e esperou os discípulos e fez discursos, no primeiro dos quais explicou a parábola das Três metamorfoses, segundo as quais é preciso que o homem se torne camelo, leão e criança. Camelo, paciente e humilde, para conseguir os grandes tesouros da vida. Leão, para "agarrar a sua presa de liberdade, lutar com seu Deus e matar o grande dragão". Menino, para ter a inocência, o esquecimento, "uma roda que roda sobre si mesma, um primeiro movimento, uma santa afirmação". E, depois, segue-se todo o evangelho do super-homem, tudo que tem e deve destruir e criar, na transmutação dos valores.
Zaratustra volve à caverna. A ideia de Deus atormenta e ele então raciocina: "Se houvesse um Deus, como não suportaria ser eu um igual. Não há, pois...". E exclama: "Sim, eu sou Zaratustra, o homem sem deus. De mim nascerá o super-homem". Ele é o porta-voz dessa filosofia da vontade do poder. Nenhuma moral, que não seja a da força, dos gatos nasçam tigres, dos sapos e lagartos, dragões e crocodilos. E o poema se desenvolve maravilhoso e surpreendente, até o banquete dos eleitos, na caverna de Zaratustra, em que degustam o cordeiro, trazido pela águia familiar, porque os fracos devem ser devorados. Mas, de súbito surge o leão, doce ao profeta e hostil aos demais. Ao seu rugido os eleitos fogem espavoridos e Zaratustra conclui que seu último pecado foi a piedade pelos homens superiores, mas a aurora nascente o torna igual ao sol da manhã.
Negado qualquer valor ao conhecimento, repelida a religião, a moral, num universo sem causa e sem fim, repleto apenas da alegoria numerosa de Zaratustra, para onde iremos? Situa-nos assim no mais completo materialismo. Spengler viu em Nietzsche um discípulo inconsciente de Darwin, no sentido da seleção pela luta. Eu confesso que os materialistas me decepcionam na maneira mais angustiosa e não encontro como respirar nesse fosso sem saída, onde o homem perde toda a garantia do seu destino e fica esmagado pela contingência sombria. Nietzsche procurou vencê-la, é certo, mas criou uma fantasia apenas, com o exagero fremente dos românticos. O seu super-homem é o sal da terra, assim falou Zaratustra. Aquele que renunciou os preconceitos da religião, da moral, da democracia e do ascetismo: aquele que teve crueldade consigo mesmo e tudo sofreu e tudo venceu, não se resignou, para superar-se, chegou à suma categoria do Super-Homem. E estabeleceu, com tais heróis, a casta dominante, dos sábios criadores de valores.
E esse sábio será um amigo da guerra, que a guerra santifica qualquer coisa, será tudo como o dinamite, como o cinzel do escultor, não conhecerá vestígio de piedade e viverá em contínuo desenvolvimento (sempre o sentido nietzschiano da ascensão), porque a vida é o que se deve superar incessantemente. E, por fim, deve saber rir. Assim falava Zaratustra: "Esta coroa de riso, esta coroa de rosas, avós, irmãos meus, eu vos lanço. Sacrificai o riso - Homens superiores, aprendei a rir!".
O super-homem de Nietzsche deslocou-se do seu individualismo e foi alargar-se na concepção nova de Estado, que se torna um ente coletivo e domina, que se procura superar e absorve e é a essência e forma, o totalismo em suma: o estadismo dos proletários de Moscou, dos fascistas de Mussolini ou dos nazistas de Hitler. Estes, sobretudo, procedem, em linha reta, do misticismo de Nietzsche, cujas origens mergulham no inconsciente radical germânico. Essa fantasia do ariano - ariano que é uma hipótese - serve de escalão para marcar uma impossível superioridade étnica.
O homem não se superou, mas a sua inteligência ideou esse estado sempre maior, que se não é dirigido por super-homens, deve ter qualidades de perfeição, que o distancie das grandes massas. O corolário da escravidão dos médios parece inalterável. E assim do mais agudo individualismo brota o mais extremo coletivismo. O eterno retorno.
Para Nietzsche, o universo se faz e refaz, através de equilíbrios para viver, mas esses se repetem em determinadas circunstâncias, num processo, cuja constante é o próprio caos. Nessa evolução, que é uma repetição, o caos é a condição do eterno retorno a séries idênticas, é a lei do mesmo círculo. Só a variedade das condições, determinadas por esse caos, é que impõe a igualdade dos mesmos acontecimentos, deflagrados pelo conflito de forças, cujo equilíbrio é função da vontade do poder. E isso sem finalismo, mesmo sem fim...
***
Nietzsche não foi, como pretendeu, um transmutador de valores, mas um criador de forças díspares e estranhas, que se perdiam numa interminável agitação, afinal infecunda e inútil. A sua filosofia nos deixa apenas essa sensação de inquietude, nunca nos satisfaz. As obras são todas precárias, sem finalismo, e o próprio super-homem é um meio e não um fim.
Para que atingir essa superioridade? Por si mesma. É preciso amar a vida sem causa e sem fim, amor ao destino devorador. Mas, para quê? Pela própria realidade da vida. O argumento se consome a si mesmo. Chegamos a um orientalismo, sem nirvana, pois o não-ser repugna ao heroísmo inútil de Nietzsche. O misticismo da vida, como a alegria da prisão.
No criador de Zaratustra nada resiste ao estranho gigantismo de suas concepções e por isso Graça Aranha, não sem certa injustiça, o julgou um "parvenu", com um prurido de aparecer, que se manifesta na "ostentação da cultura, na declamação em voz alta, na sua intenção de refazer, de renovar". Depois, fica apenas dessa filosofia o disforme e o monstruoso, sem alma e sem esperança. Ele quis vencer o ceticismo, com que Kant secara a razão humana, inutilizando o ilusionismo das fórmulas, mas atingiu apenas a sombra da melancolia.
O irracionalismo de Nietzsche chegou às mais inconcebíveis conclusões e, negando todas as forças da razão, teve de substituir o balizamento da filosofia. Foi a sua transmutação de valores. Mas, que colocou no lugar de que arrasara? Um destino cego, ignorante, beático, petulante e louco: "uma coisa é impossível em toda parte, e essa coisa tem um sentido nacional", falava Zaratustra. Quis realizar Hitler e o mundo está sangrando.
***
Nietzsche foi sobretudo um artista. Não só o poeta de Zaratustra, mas, principalmente, o jogador de formas de pensamento. A agilidade, com que admirava o conceito ou a ideia, buscando menos o seu valor do que os efeitos da fantasia livre e audaz, era sempre uma surpresa nova e incomparável.
Nietzsche foi um dançarino formidável. Ele saltava, ele pulava, indomável e alígero, ao ímpeto duma música interior, a que não faltavam os acentos graves da loucura em derredor. O seu gênio amava a plástica pelo movimento e as suas imagens se agitam, lançam-se, rodopiam e caem. Essa força de ascensão lhe determinou o super-homem, que é movimento para cima. Poesia ardente de aspiração, do ser que se sublima, para superar-se a si próprio. Como? Pela ilusão. A ilusão do dançarino. "Dançarino acorrentado", foi a sua concepção do artista e ele próprio a realizou.
A sua eterna contradição, a displicência com que lançava as ideias mais opostas e conciliava as mais impossíveis antinomias, dão bem o sentido da irrealidade com que faz a sua poesia. Por isso, muitos lhe recusam o título de filósofo. Pouco importam os sistematizadores. A sua filosofia foi uma expressão de arte, que se inspirou na vida, não para explicá-la, mas para exaltá-la. A sua constante foi a aspiração e, se o eterno descontentamento o fez pessimista, ele vence essa essência, sobrepondo uma outra, que tornava mais alta e mais perfeita. E se foi, de salto em salto, até à magia de Zaratustra. E, no último salto, chegou à loucura! Infelizmente essa loucura contaminaria e chegaria ao desespero na prática por homens possessos.
O espetáculo do universo lhe pareceu sempre um deslumbramento e quis integrar-se nele como uma força irredutível. A impossibilidade não o venceu e, se a filosofia lhe recuou o impulso ansiado, a arte foi o recurso supremo. E ele mesmo criou os instrumentos da sua mágica: o super-homem, a "gaya scienza", o "amor fati", a arte apolínia, a fantasmagoria de Zaratustra. Dançou entre os fantasmas da sua poesia, como um semi-deus, senhor da realidade que brotava do seu lirismo fremente e foi um criador contínuo, infatigável e absoluto. Criador de quê? De formas estéticas, de beleza, por que a sua filosofia só tem a emoção. Aliás, ele tinha que todas as sensações se deviam transmutar numa única sensação, de beleza, pela qual se chegaria ao paraíso de Zaratustra. O Mundo como encantamento!
Mas, em Nietzsche há ainda outra emoção, maior talvez do que a da poesia de Zaratustra - esse é um poema imortal - é a da sua própria tragédia. Esse homem, que sofreu toda a melancolia da solidão, cujo orgulho o separou dos homens, e teve de procurar na paisagem o seu próprio deslumbramento, vendo no fundo dos lagos os olhos da solidão, que o miravam, numa atração sombria, esse homem que viveu perturbado pelos seus próprios fantasmas, cuja morte anunciava a plenos pulmões, para melhor convencer, esse cantor da alegria, submerso na tristeza, divinizador da saúde, mas irremediavelmente doente, esse senhor da vida, que era incapaz de viver, esse Nietzsche superou-se pelo sofrimento e o seu canto tem a amargura trágica das vozes dos mártires eternos. Há no seu destino um lirismo de dor inesgotável. Odiava os alemães e foi um dos inspiradores de seu sonho de domínio...
O próprio gênio foi, para ele, uma perturbação. Tudo quis e a tudo aspirou, mas teve de confundir-se na música das suas próprias palavras, e foi o que lhe ficou da sua construção audaciosa. O seu romantismo possesso conduziu-o a divinizar o homem, mas falhou a lição de Zaratustra, e o mundo a amaldiçoou. A sua caverna, como a do seu profeta ficou deserta, mas a força do seu pensamento, como obra de arte, "é ardente e forte, sol da manhã que surge das montanhas sombrias".

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